Abdellatif Laâbi

agosto 29, 2010

Meu caro duplo


Meu duplo
um velho conhecido
que frequento com moderação
É um cara-de-pau
que maneja minha timidez
e sabe tirar proveito
das minhas distrações
Ele é a sombra
que me segue ou me precede
macaqueando minhas maneiras
Ele se imiscui até nos meus sonhos
e fala fluentemente
a língua dos meus demônios
Apesar da nossa grande intimidade
ele ainda me é estrangeiro
Eu não o odeio nem o amo
pois no fim das contas
ele é meu duplo
a prova pelo avesso
da minha existência


* * *

Mon cher double


Mon double
une vieille connaissance
que je fréquente avec modération
C’est un sans-gêne
qui joue de ma timidité
et sait mettre à profit
mes distractions
Il est l’ombre
qui me suit ou me précède
en singeant ma démarche
Il s’immisce jusque dans mes rêves
et parle couramment
la langue de mes démons
Malgré notre grande intimité
il me reste étranger
Je ne le hais ni ne l’aime
car après tout
il est mon double
la preuve par défaut
de mon existence

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Norge (1898-1990)

junho 8, 2010

Despertar


O amanhecer poroso
que eflui,
reabita
nossos embaçados pensamentos

A gente se entoga uma vez mais
com o falso traje de nós mesmos.

A gente reengessa a máscara de ontem
nesse rosto tão temeroso
de sua nudez.

A gente pega de volta a vida – dobrada
sobre uma poltrona
ao pé da cama –
como uma roupa escolhida a dedo.

A gente cataloga a imprecisa
moeda das palavras que será preciso dizer,
a confusa mercadoria dos gestos
que será preciso fazer

Para continuarmos logrados
pela própria descrição.

E todo mundo acha natural
não ter se tornado
um outro.


* * *


Réveil


Le petit jour poreux
qui efflue,
réhabite
nos vitreuses pensées

On s’entoge encore une fois
du faux habit de soi-même.

On replâtre le masque d’hier
à ce visage trop frileux
de sa nudité.

On reprend sa vie – pliée
sur un fauteuil
au pied du lit –
comme un vêtement qu’on soigne.

On s’inventorie la risqueuse
monnaie des paroles qu’il faudra dire,
la trouble marchandise des gestes
qu’il faudra faire

Pour demeurer la dupe
de son signalement.

Et chacun trouve naturel
de n’être pas devenu
un autre.

Georges Ribemont-Dessaignes (1884-1974)

abril 2, 2010

Espera


As andorinhas da lembrança
Viajam de um dedo a outro
E na ponta dos dedos
O lagarto verde do porvir
Come as moscas do coração.
Darei esta pastilha
À língua que beijar o fiel desconforto,
Aceitarei a mão
Que der sementes de sol,
De lua, de estrelas e de nuvens
Para meu papagaio verde.
Eu grito:
Para mim, para mim, para mim!
Mas eu bem sei que não passa de um papagaio de olho voraz,
Pois eu não clamo, nem eu, nem você nem ninguém.
Sob a máscara eu pus o vazio.
No vazio eu pus as mil letras do alfabeto,
Isso dá um belo concerto
Mesmo que não haja ninguém.
E no entanto eu espero, eu espero,
Eu espero pelo zero que nunca virá.


* * *


Attente


Les hirondelles du souvenir
Voyagent d’un doigt à l’autre
Et sur le bout du doigt
Le lézard vert de l’avenir
Mange les mouches du cœur.
Je donnerai cette pastille
À la langue qui baisera l’ennui fidèle,
J’accepterai la main
Qui donnera des graines de soleil,
De lune, d’étoiles et de nuages
À mon perroquet vert.
Je crie :
À moi, à moi, à moi !
Mais je sais bien que ce n’est qu’un perroquet à l’œil vorace,
Car je n’appelle pas, ni moi, ni vous ni personne.
Sous le masque j’ai mis le vide.
Dans le vide j’ai mis les mille lettres de l’alphabet,
Cela fait un beau concert
Bien qu’il n’y ait personne.
Et pourtant j’attends, j’attends,
J’attends le zéro qui ne viendra jamais.

alinhamento

março 18, 2010

Mudarei o alinhamento dos meus poemas
eles ficarão mais elegantes
eles ganharão esse jeito de epígrafe
eles se tornarão mais facilmente citáveis
eles serão efetivamente mais citados

Mudarei o alinhamento dos meus poemas
como num desvario
como num simples clique em falso

Mudarei o alinhamento dos meus poemas
por mero capricho visual
por saco cheio do atual padrão
por ter me dado conta de que a esquerda é convencional
por ter involuntariamente feito uma metáfora de seríssimas implicações
por prazer de ver as letras surgindo correndo passando fugindo mordendo empurrando as outras para o lado como loucas
por puro acaso

Mudarei o alinhamento dos meus poemas
também o das minhas roupas
também o dos móveis da sala
também o do horizonte

Mudarei o alinhamento dos meus poemas
a orientação do meu olhar
a inclinação da minha letra
a pespectiva que tenho sobre os acontecimentos marcantes da infância
a obliquidade das respostas quando questionado sobre planos para o futuro
a retidão das minhas incoerências
a precisão com que gaguejo
a curvatura da minha espinha

tio Mário

fevereiro 17, 2010

Onze-horas


Quando tio Mário saiu da garagem
empurrando a bicicleta até o portãozinho da frente
numa noite anormalmente fresca de verão
já passava das dez horas
e ele ainda não sabia.

Quando tio Mário montou na bicicleta
levava certamente na cabeça
o ritual de pontualidade britância das onze-horas
acontecendo no pátio de casa
(descobrira na mesma tarde uma senhora
a não muitos quarteirões dali
que lhe daria algumas
já que além de bom papo, o danado
tinha mão boa para plantas)
mas onze da manhã só no dia seguinte
e ele ainda não sabia.

Quando tio Mário pedalava
adentrando escuras ruas e esburacadas
em ritmo de caminhada
eu dormia profundamente
em meu fuso-horário mais perto das onze
sem saber da bicicleta
sem saber das flores
sem saber da noite anormalmente fresca de verão
sem saber de nada
nem que ele ainda
não, ele ainda não sabia.

Quando tio Mário parou
(quantos minutos depois? talvez cinco)
ele ainda não sabia.
Não sabia do poste
em que haveria de se escorar
para recuperar o ritmo cheio de chiado de sua respiração.
Não sabia da ardência
do aperto, do lado esquerdo
ou, como era costume, não levou a sério.
Não sabia que passantes
quaisquer, desconhecidos
sabem sim o que é impulso
de humana compreensão.
Não sabia que seu filho
que não é piloto de Fórmula 1
embora devesse
pudesse chegar em sete minutos
no Instituto de Cardiologia de Porto Alegre
(sete minutos
isso vindo de Canoas
e sem cinto de segurança).
Não sabia que no Túnel da Conceição
também pode acontecer
além de engarrafamentos irremediáveis
tudo o que cabe no silêncio
(inclusive silêncio)
como uma flor que se abre
doze horas antes do combinado
nem que um sobrinho
poeta e incapaz
de distinguir nanquim e lágrima
escreveria um poema
no dia seguinte
isso ele também não sabia.

euclidianas

fevereiro 5, 2010

Euclidianas é o título do décimo-primeiro livro de Eugène Guillevic (1907-1997), um dos mais importantes poetas franceses da segunda metade do século XX, que por mania assinava seus textos apenas como Guillevic. Sua poesia, infelizmente, é pouco conhecida (traduzida) no Brasil.
Nessa obra, publicada em 1967 pela Gallimard, 43 figuras e/ou noções tomadas da geometria euclidiana intitulam e ilustram os 50 poemas curtos que a compõem (o ângulo reto, o círculo, o ângulo obtuso, o plano e a esfera dão vez/voz a mais de um poema), formando uma espécie de compêndio poético de geometria elementar e desvendando, assim, o que há de mais tangencialmente humano em todos (todos?) nós.


paralelas

Vocês gritam no espaço
Que deve separá-las.

Vocês gritam tão forte
Ao menos para o outro espaço
Que vocês cortam em dois,

Como se vocês fossem
Para todo o sempre as únicas
A não poder se encontrar.


ângulo obtuso

Se é por não ter
Poder para penetrar
O que faz abrir-se ainda
Bem mais do que gostaríamos

Ou se é por estar aberto
Bem mais do que gostaríamos
O que tira seu poder
Para penetrar,

Será isso
Uma pergunta?

Se é, a resposta
Está em algum lugar.


esfera



Eu te amo por seres habitual,
Espaço para meus dias,
Para meu olhar os olhos fechados.

Em ti tenho lugar,
Em ti eu existo,
Eu me edifico.

Em ti,
Aquilo que amo, aqueles que amo,
Alguns lamentos.

Em ti silêncio,
Em ti o tempo
Que recolho, resumo.

Sair de ti,
Isso será para não estar mais,
Para não ser mais.


cilindro

Se deixássemos a esfera
Para sairmos por aí,
É através de ti
Que passaríamos.

Imagino mais ou menos
O que isso poderia ser:

Conheci teu comprimento
Em tantos sonhos ruins.


parábola

Vinda de longe

Sempre com o mesmo,
O movimento regular,

Cada passo que dou
Está por antecipação inscrito,
Cada lugar em que toco
Estava predestinado
Mas só por minha história.

Vinda de longe

Para essa volúpia,
Mas tão curta, no topo.

E de novo partir
Em sentido inverso
Igualmente,
Exatamente.


cone truncado

Tão bem tu te pareces
Com muitos entre nós

Que não fomos
Até o topo.


***


parallèles

Vous criez dans l’espace
Qui doit vous séparer.

Vous criez aussi fort
Au moins vers l’autre espace
Que vous coupez en deux,

Comme si vous étiez
A tout jamais les seuls
A ne pouvoir vous rencontrer.


angle obtus

Si c’est de n’avoir pas
Pouvoir de pénétrer
Qui fait s’ouvrir encore
Bien plus qu’on ne voudrait

Ou si c’est d’être ouvert
Bien plus qu’on ne voudrait
Qui vous enlève le pouvoir
De pénétrer,

Est-ce que c’est
Une question?

Si c’en est une, la réponse
Est quelque part.


sphère

Je t’aime d’être habituelle,
Espace pour mes jours,
Pour mon regard les yeux fermés.

En toi j’ai place,
En toi je suis,
Je me bâtis.

En toi,
Cela que j’aime, ceux que j’aime,
Quelques regrets.

En toi silence,
En toi le temps
Que je recueille, je résume.

Sortir de toi,
Ce sera pour n’être plus là,
Pour n’être plus.


cylindre

Si l’on quittait la sphère
Pour s’en aller ailleurs,
C’est à travers toi
Que l’on passerait.

J’imagine à peu près
Ce que ça pourrait être :

J’ai connu ta longueur
Dans tant de mauvais rêves.


parabole

Venant de loin

Avec toujours la même,
La régulière allure,

Chaque pas que je fais
Est par avance inscrit,
Chaque lieu que je touche
Était prédestiné
Mais par ma seule histoire.

Venant de loin

Vers cette volupté,
Mais si courte, au sommet.

Puis repartir
En sens inverse
Pareillement,
Exactement.


cône tronqué

Aussi bien tu ressembles
A beaucoup d’entre nous

Qui ne sont pas allés
Jusqu’à former sommet.

bexiga

dezembro 20, 2009

Antes ainda de eu abrir a porta
vaticinava a mãe que era melhor
fazer xixi só para garantir.

Fosse eu logo ali na padaria
para do pão poder guardar o troco
ou na piscina de água bem quentinha
da natação terças e quintas contra a asma
fosse aonde fosse e mesmo que
sinal algum de uma vontade houvesse
e ainda por três quatro ardidas gotas
amareladas na borda do vaso
ela dizia não quer fazer xixi
meu filho só para garantir?

Hoje mijo nem que seja sangue
(perdoadas sejam elas por não saberem
que amor de mãe não enche bexiga)
mijo em seu nome e em nome do filho
que eu poderia não ter sido.

um silêncio de cada vez

dezembro 8, 2009

Poesia: estado
de mudo analfabetismo
bem organizado.

ruminando a place Dauphine

novembro 12, 2009

 

Enquanto isso


Mas se sou mero pescador
que com esmero espera peixes fora d’água
não é de graça estar sentado, é pura praxe
a uma hora dessas numa dessas praças
assim atento espectador de espectros
assento para pombo ou corvo
astuto, estátua, pose para foto
assim em condição de espelho
embaçado especulando se um dia
meus caros, um dia
minha casa, um dia
talvez um dia
em meu caminho, um dia
em minha vida, um dia
se isso por algum acaso
um dia−
pensando bem
isso não passa


Paris, place Dauphine, 11 de novembro de 2009.

Valery Larbaud (1881-1957)

outubro 29, 2009

Ode


Empresta-me teu grande ruído, tua grande marcha tão suave,
Teu deslizar noturno através da Europa iluminada,
Ó trem de luxo! e a angustiante música
Que ressoa ao longo de teus corredores de couro dourado,
Enquanto atrás das portas laqueadas, com trincos de cobre pesado,
Dormem os milionários.
Eu percorro cantarolando teus corredores
E sigo tua corrida para Viena e Budapeste,
Misturando minha voz às tuas cem mil vozes,
Ó Harmonika-Zug!

Eu senti pela primeira vez todo o prazer de viver,
Em uma cabine do Norte-Expresso, entre Wirballen e Pskow.
Deslizávamos através das pradarias onde os pastores,
Ao pé de grupos de grandes árvores iguais a colinas,
Estavam vestidos com peles de ovelhas cruas e sujas…
(Oito horas da manhã no outono, e a bela cantora
Dos olhos violeta cantava na cabine ao lado.)
E vós, grandes lugares através dos quais eu vi passar a Sibéria e os montes do Sâmnio,
A Castela áspera e sem flores, e o mar de Mármara sob uma chuva morna!

Emprestai-me, ó Expresso do Oriente, Sud-Brenner-Bahn, emprestai-me
Vossos milagrosos ruídos surdos e
Vossas vibrantes vozes de delgada corda;
Emprestai-me a respiração leve e fácil
Das locomotivas altas e magras, com movimentos
Tão fluidos, as locomotivas dos rápidos,
Precedendo sem esforço quatro vagões amarelos com letras de ouro
Nas solidões montanhosas da Sérvia,
E, mais longe, através da Bulgária cheia de rosas.

Ah! é preciso que esses ruídos e que esse movimento
Entrem nos meus poemas e digam
Para mim minha vida indizível, minha vida
De criança que não quer saber nada, senão
Esperar eternamente coisas vagas.

 


Ode


Prête-moi ton grand bruit, ta grande allure si douce,
Ton glissement nocturne à travers l’Europe illuminée,
Ô train de luxe ! et l’angoissante musique
Qui bruit le long de tes couloirs de cuir doré,
Tandis que derrière les portes laquées, aux loquets de cuivre lourd,
Dorment les millionnaires.
Je parcours en chantonnant tes couloirs
Et je suis ta course vers Vienne et Budapesth,
Mêlant ma voix à tes cent mille voix,
Ô Harmonika-Zug !

J’ai senti pour la première fois toute la douceur de vivre,
Dans une cabine du Nord-Express, entre Wirballen et Pskow.
On glissait à travers des prairies où des bergers,
Au pied de groupes de grands arbres pareils à des collines,
Etaient vêtus de peaux de moutons crues et sales…
(Huit heures du matin en automne, et la belle cantatrice
Aux yeux violets chantait dans la cabine à côté.)
Et vous, grandes places à travers lesquelles j’ai vu passer la Sibérie et les monts du Samnium,
La Castille âpre et sans fleurs, et la mer de Marmara sous une pluie tiède!

Prêtez-moi, ô Orient-Express, Sud-Brenner-Bahn, prêtez-moi
Vos miraculeux bruits sourds et
Vos vibrantes voix de chanterelle;
Prêtez-moi la respiration légère et facile
Des locomotives hautes et minces, aux mouvements
Si aisés, les locomotives des rapides,
Précédant sans effort quatre wagons jaunes à lettres d’or
Dans les solitudes montagnardes de la Serbie,
Et, plus loin, à travers la Bulgarie pleine de roses.

Ah ! il faut que ces bruits et que ce mouvement
Entrent dans mes poèmes et disent
Pour moi ma vie indicible, ma vie
D’enfant qui ne veut rien savoir, sinon
Espérer éternellement des choses vagues.


De Les Poésies de A. O. Barnabooth, 1908.