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Philippe Soupault (1897-1990)

junho 30, 2009

Westwego


Todas as cidades do mundo
oásis dos nossos tédios mortos de fome
oferecem bebidas geladas
às memórias dos solitários e dos maníacos
e dos sedentários
Cidades dos continentes
vocês são bandeiras
estrelas caídas sobre a terra
sem saber muito bem por que
e as amantes dos poetas de agora

Eu passeava em Londres num verão
os pés queimando e o coração nos olhos
perto das paredes pretas perto das paredes vermelhas
perto das grandes docas
onde os policemen gigantes
são arqueados como pontos de interrogação
Podíamos brincar com o sol
que se punha como um pássaro
sobre todos os monumentos
pombo viajante
pombo cotidiano

Eu fui a este bairro que chamamos Whitechapel
peregrinação de minha infância
onde eu encontrei
apenas pessoas muito bem vestidas
e cobertas com cartolas
apenas vendedoras de palitos de fósforos
cobertas com chapéus de palha
que gritavam como as camponesas da França
para atrair os clientes
penny penny penny
Eu entrei num bar
vagão de terceira classe
onde estavam numa mesa
Daisy Mary Poppy
ao lado dos vendedores de peixe
que mascavam tabaco fechando um olho
para esquecer a noite
a noite que se aproximava a passos de lobo
a passos de coruja
a noite e o cheiro do rio e o da maré
a noite rasgando o sono

Era um dia triste
de cobre e de areia
e que corria lentamente entre as lembranças
ilhas desertadas tempestades de poeira
para os animais rugindo de raiva
que baixam a cabeça
como você e como eu
porque nós estamos sozinhos nesta cidade
vermelha e preta
onde todas as lojas são mercearias
onde as melhores pessoas têm os olhos bem azuis

Está calor e hoje é domingo
está triste
o rio é muito infeliz
e os habitantes ficaram em suas casas
Eu passeio perto do Tâmisa
uma só barca desliza para alcançar o céu
o céu imóvel
porque é domingo
e o vento não se levantou
é meio-dia são cinco horas
não sabemos mais aonde ir
um homem canta sem saber por que
como eu caminho
quando somos jovens é para a vida inteira
minha infância enjaulada
neste museu sonoro
no madame Tussaud
é Nick Carter e seu chapéu-coco
ele tem em seu bolso toda uma coleção de revólveres
e algemas brilhantes como injúrias
Perto dele o cavaleiro Bayard
que a ele se assemelha como um irmão
é a história santa e a história da Inglaterra
perto dos grandes criminosos que não têm mais nome

Quando eu saí aonde fui
não há cafés
nem luzes que fazem voar as palavras
não há mesas onde possamos nos apoiar
para não ver nada para não olhar nada
não há copos
não há fumaças
somente as calçadas longas como os anos
onde manchas de sangue florescem à noite
eu vi nessa cidade
tantas flores tantos pássaros
porque eu estava sozinho com minha memória
perto de todas as suas grades
que escondem os jardins e os olhos

nas margens do Tâmisa
numa bela manhã de fevereiro
três ingleses em mangas de camisa
se esgoelavam cantando
trá lá lá trá lá lá trá lá li

Ônibus tea-rooms Leicester-square
eu os reconheço eu nunca os vi
que não em cartões-postais
que minha empregada recebia
folhas mortas
Mary Daisy Poppy
pequenas chamas
neste bar sem olhar
vocês são as amigas que um poeta de quinze anos
admira lentamente
pensando em Paris
à beira de uma janela
uma nuvem passa
é meio-dia
perto do sol
Caminhemos para ser tolos
corramos para ser alegres
riamos para ser fortes

Estranho viajante viajante sem bagagens
eu nunca deixei Paris
minha memória não me deixava nem por um segundo
minha memória me seguia como um cachorrinho
eu era mais besta que as ovelhas
que brilham no céu à meia-noite
está muito calor
eu me digo baixinho e muito seriamente
estou com muita sede estou realmente com muita sede
eu tenho apenas meu chapéu
chave dos campos chave dos sonhos
pai das lembranças
será que eu nunca deixei Paris
mas esta noite eu estou nesta cidade
atrás de cada árvore das avenidas
uma lembrança espreita minha passagem
És tu minha velha Paris
mas esta noite enfim, eu estou nesta cidade
teus monumentos são os marcos quilométricos de meu cansaço
eu reconheço tuas nuvens
que se encaixam nas chaminés
para me dizer adeus ou bom-dia
à noite tu és fosforescente
eu te amo como se ama um elefante
todos os teus gritos são para mim gritos de afeto
eu sou como Aladin no jardin
onde a lâmpada mágica estava acesa
eu não procuro nada
eu estou aqui
eu estou sentando na calçada de um café
e eu sorrio com todos os meus dentes
pensando em todas as minhas famosas viagens
eu queria ir a Nova Iorque ou a Buenos Aires
conhecer a neve de Moscou
partir uma noite a bordo de um grande navio
para Madagascar ou Xangai
subir o Mississipi
eu fui a Barbizon
e eu reli as viagens do capitão Cook
eu me deitei sobre o musgo elástico
eu escrevi poemas perto de uma anêmona-dos-bosques
colhendo as palavras penduradas nos galhos
a pequena estrada de ferro me fazia pensar no transcanadense
e esta noite eu sorrio porque eu estou aqui
diante deste copo que treme
onde eu vejo o universo
rindo
sobre os bulevares nas ruas
todos os marginais passam cantando
as árvores secas tocam o céu
contanto que chova
podemos caminhar sem cansaço
até o oceano ou mais longe
lá o mar bate como um coração
mais perto o afeto cotidiano
das luzes e dos latidos
o céu descobriu a terra
e o mundo é azul
contanto que chova
e o mundo ficará contente
há também mulheres que riem ao me olharem
mulheres cujos nomes eu nem ao menos sei
as crianças gritam nas suas gaiolas do Luxemburgo
o sol mudou bastante de seis meses para cá
há tantas coisas que dançam diante de mim
meus amigos adormecidos nos quatro cantos
eu os verei amanhã
André dos olhos cor de planeta
Jacques Louis Théodore
o grande Paul minha cara árvore
e Tristan cujo riso é um grande pavão
vocês estão vivos
eu esqueci seus gestos e sua verdadeira voz
mas esta noite eu estou sozinho eu sou Philippe Soupault
eu desço lentamente o boulevard Saint-Michel
eu não penso em nada
eu conto os lampadários que conheço tão bem
me aproximando do Sena

perto das Pontes de Paris

e eu falo bem alto
todas as ruas são afluentes
quando amamos este rio onde corre todo o sangue de Paris
e que é sujo como uma puta suja
mas que é também o Sena simplesmente
com quem falamos como fosse nossa mãe
eu estava muito perto dele
que se ia sem lamento e sem barulho
sua lembrança apagada era uma doença
eu me apoiava no parapeito
como nos ajoelhamos para rezar
as palavras caíam como lágrimas
doces como balas
Bom-dia Rimbaud como vai você
Bom-dia Lautréamont como você tem se comportado
eu tinha vinte anos nem um centavo a mais
meu pai nasceu em Saint-Malo
e minha mãe viu o dia na Normandia
quanto a mim eu fui batizado no Canadá
Bom-dia eu
Os vendedores de tapetes e as belas garotas
que vagam à noite pelas ruas
aqueles que guardam nos olhos a doçura das lâmpadas
aqueles a quem a fumaça de um cachimbo e o copo de vinho
parecem mesmo assim um pouco insípidos
me conhecem sem saber meu nome
e me dizem ao passarem Bom-dia você
e no entanto há em meu peito
pequenos sóis que giram com um barulho de chumbo
grande gigante do bulevar
homem gentil do palácio de justiça
o raio é mais bonito na primavera
Seus olhos meu raio são tesouras
motoristas ainda me restam sete cartuchos
nem um a mais nem um a menos
nenhum deles é para vocês
vocês são feios como interrogatórios
e eu leio em todas as paredes
tapetes tapetes tapetes e tapetes
os grandes comboios das experiências
perto de nós perto de mim
palitos de fósforo suecos

As noites de Paris têm esses cheiros fortes
que deixam os arrependimentos e as dores de cabeça
e eu sabia que era tarde
e que a noite
a noite de Paris ia terminar
como os dias de festa
tudo estava bem organizado
e ninguém dizia palavra
eu esperava os três tiros
o sol se levanta como uma flor
que chamamos eu acho dente-de-leão
as grandes vegetações mecânicas
que não esperavam que os encorajamentos
subissem e caminhassem
fielmente
não se sabe mais se é preciso compará-los
às trepadeiras
ou aos gafanhotos
o cansaço se dissipou
eu vejo os marinheiros que saem
para limpar o carvão
os mecânicos dos rebocadores
que enrolam um primeiro cigarro
antes de acender a caldeira
lá em uma ponte
um capitão tira seu lenço
para secar o rosto
por costume
e eu o primeiro esta manhã
eu digo mesmo assim
Bom-dia
Philippe Soupault


Westwego


Toutes les villes du monde
oasis des nos ennuis morts de faim
offrent des boissons fraîches
aux mémoires des solitaires et des maniaques
et des sédentaires
Villes des continents
vous êtes des drapeaux
des étoiles tombées sur la terre
sans très bien savoir pourquoi
et les maîtresses des poètes de maintenant

Je me promenais à Londres un été
les pieds brûlants et le cœur dans les yeux
près des murs noirs près des murs rouges
près des grands docks
où les policemen géants
sont piqués comme des points d’interrogation
On pouvait jouer avec le soleil
qui se posait comme un oiseau
sur tous les monuments
pigeon voyageur
pigeon quotidien

Je suis allé dans ce quartier que l’on nomme Whitechapel
pèlerinage de mon enfance
où je n’ai rencontré
que des gens très bien vêtus
et coiffés de chapeaux hauts de forme
que des marchandes d’allumettes
coiffées de canotiers
qui criaient comme les fermières de France
pour attirer les clients
penny penny penny
Je suis entré dans un bar
wagon de troisième classe
où s’étaient attablés
Daisy Mary Poppy
à côté des marchands de poissons
qui chiquaient en fermant un œil
pour oublier la nuit
la nuit qui approchait à pas de loup
à pas de hibou
la nuit et l’odeur du fleuve et celle de la marée
la nuit déchirant le sommeil

C’était un triste jour
de cuivre et de sable
et qui coulait lentement entre les souvenirs
îles désertées orages de poussière
pour les animaux rugissants de colère
qui baissent la tête
comme vous et comme moi
parce que nous sommes seuls dans cette ville
rouge et noire
où toutes les boutiques sont des épiceries
où les meilleurs gens ont les yeux très bleus

Il fait chaud et c’est aujourd’hui dimanche
il fait triste
le fleuve est très malhereux
et les habitants sont restés chez eux
Je me promène près de la Tamise
une seule barque glisse pour atteindre le ciel
le ciel immobile
parce que c’est dimanche
et que le vent ne s’est pas levé
il est midi il est cinq heures
on ne sait plus où aller
un homme chante sans savoir pourquoi
comme je marche
quand on est jeune c’est pour la vie
mon enfance en cage
dans ce musée sonore
chez madame Tussaud
c’est Nick Carter et son chapeau melon
il a dans sa poche toute une collection de revolvers
et des menottes brillantes comme des jurons
Près de lui le chevalier Bayard
qui lui ressemble comme un frère
c’est l’histoire sainte et l’histoire d’Angleterre
près des grands criminels qui n’ont plus de noms

Quand je suis sorti où suis-je allé
il n’y a pas de cafés
pas de lumières qui font s’envoler les paroles
il n’y a pas de tables où l’on peut s’appuyer
pour ne rien voir pour ne rien regarder
il n’y a pas de verres
il n’y a pas de fumées
seulement les trottoirs longs comme les années
où des taches de sang fleurissent le soir
j’ai vu dans cette ville
tant de fleurs tant d’oiseaux
parce que j’étais seul avec ma mémoire
près de toutes ses grilles
qui cachent les jardins et les yeux

sur les bords de la Tamise
un beau matin de février
trois Anglais en bras de chemise
s’égosillaient à chanter
trou la la trou la la trou la laire

Autobus tea-rooms Leicester-square
je vous reconnais je ne vous ai jamais vus
que sur des cartes postales
que recevait ma bonne
feuilles mortes
Mary Daisy Poppy
petites flammes
dans ce bar sans regard
vous êtes les amies qu’un poète de quinze ans
admire doucement
en pensant à Paris
au bord d’une fenêtre
un nuage passe
il est midi
près du soleil
Marchons pour être sots
courons pour être gais
rions pour être forts

Étrange voyageur voyageur sans bagages
je n’ai jamais quitté Paris
ma mémoire ne me quittait pas d’une semelle
ma mémoire me suivait comme un petit chien
j’étais plus bête que les brebis
qui brillent dans le ciel à minuit
il fait très chaud
je me dis tout bas et très sérieusement
j’ai très soif j’ai vraiment très soif
je n’ai que mon chapeau
clef des champs clef des songes
père des souvenirs
est-ce que j’ai jamais quitté Paris
mais ce soir je suis dans cette ville
derrière chaque arbre des avenues
un souvenir guette mon passage
C’est toi mon vieux Paris
mais ce soir enfin, je suis dans cette ville
tes monuments sont les bornes kilométriques de ma fatigue
je reconnais tes nuages
qui s’accrochent aux cheminées
pour me dire adieu ou bonjour
la nuit tu es phosphorescent
je t’aime comme on aime un éléphant
tous tes cris sont pour moi des cris de tendresse
je suis comme Aladin dans le jardin
où la lampe magique était allumée
je ne cherche rien
je suis ici
je suis assis à la terrasse d’un café
et je souris de toutes mes dents
en pensant à tous mes fameux voyages
je voulais aller à New York ou à Buenos Aires
connaître la neige de Moscou
partir un soir à bord d’un paquebot
pour Madagascar ou Shang-haï
remonter le Mississipi
je suis allé à Barbizon
et j’ai relu les voyages du capitaine Cook
je me suis couché sur la mousse élastique
j’ai écrit des poèmes près d’une anémone sylvie
en cueillant les mots qui pendaient aux branches
le petit chemin de fer me faisait penser au transcanadien
et ce soir je souris parce que je suis ici
devant ce verre tremblant
où je vois l’univers
en riant
sur les boulevards dans les rues
tous les voyous passent en chantant
les arbres secs touchent le ciel
pourvu qu’il pleuve
on peut marcher sans fatigue
jusqu’à l’océan ou plus loin
là-bas la mer bat comme un cœur
plus près la tendresse quotidienne
des lumières et des aboiements
le ciel a découvert la terre
et le monde est bleu
pourvu qu’il pleuve
et le monde sera content
il y a aussi des femmes qui rient en me regardant
des femmes dont je ne sais même pas le nom
les enfants crient dans leur volière du Luxembourg
le soleil a bien changé depuis six mois
il y a tant de choses qui dansent devant moi
mes amis endormis aux quatre coins
je les verrai demain
André aux yeux couleur de planète
Jacques Louis Théodore
le grand Paul mon cher arbre
et Tristan dont le rire est un grand paon
vous êtes vivants
j’ai oublié vos gestes et votre vraie voix
mais ce soir je suis seul je suis Philippe Soupault
je descends lentement le boulevard Saint-Michel
je ne pense à rien
je compte les réverbères que je connais si bien
en m’approchant de la Seine

près des Ponts de Paris

et je parle tout haut
toutes les rues sont des affluents
quand on aime ce fleuve où coule tout le sang de Paris
et qui est sale comme une sale putain
mais qui est aussi la Seine simplement
à qui on parle comme à sa maman
j’étais tout près d’elle
qui s’en allait sans regret et sans bruit
son souvenir éteint était une maladie
je m’appuyais sur le parapet
comme on s’agenouille pour prier
les mots tombaient comme des larmes
douces comme des bonbons
Bonjour Rimbaud comment vas-tu
Bonjour Lautréamont comment vous portez-vous
j’avais vingt ans pas un sou de plus
mon père est né à Saint-Malo
et ma mère vit le jour en Normandie
moi je fus baptisé au Canada
Bonjour moi
Les marchands de tapis et les belles demoiselles
qui traînent la nuit dans les rues
ceux qui gardent dans les yeux la douceur des lampes
ceux à qui la fumée d’une pipe et le verre de vin
semblent tout de même un peu fades
me connaissent sans savoir mon nom
et me disent en passant Bonjour vous
et cependant il y a dans ma poitrine
des petits soleils qui tournent avec un bruit de plomb
grand géant du boulevard
homme tendre du palais de justice
la foudre est-elle plus jolie au printemps
Ses yeux ma foudre sont des ciseaux
chauffeurs il me reste encore sept cartouches
pas une de plus pas une de moins
pas une d’elles n’est pour vous
vous êtes laids comme des interrogatoires
et je lis sur tous les murs
tapis tapis tapis et tapis
les grands convois des expériences
près de nous près de moi
allumettes suédoises

Les nuits de Paris ont ces odeurs fortes
que laissent les regrets et les maux de tête
et je savais qu’il était tard
et que la nuit
la nuit de Paris allait finir
comme les jours de fêtes
tout était bien rangé
et personne ne disait mot
j’attendais les trois coups
le soleil se lève comme une fleur
qu’on appelle je crois pissenlit
les grandes végétations mécaniques
qui n’attendaient que les encouragements
grimpent et cheminent
fidèlement
on ne sait plus s’il faut les comparer
au lierre
ou aux sauterelles
la fatigue s’est elle envolée
je vois les mariniers qui sortent
pour nettoyer le charbon
les mécaniciens des remorqueurs
qui roulent une première cigarette
avant d’allumer la chaudière
là-bas dans un pont
un capitaine sort son mouchoir
pour s’éponger la tête
par habitude
et moi le premier ce matin
je dis quand même
Bonjour
Philippe Soupault

Henri Meschonnic, dois poemas

maio 29, 2009

entre cada palavra um deserto
no interior das palavras o
deserto
e em cada letra eu
sou grato
ao silêncio
por tudo o que me permitiu
gritar


* * *


sim
sou eu
que falto às palavras
não as palavras que me faltam eu devia
ter dormido quando não
precisava eu não estava
presente quando fizeram-lhes
dizer o que eu não queria
desde então eu trabalho para o silêncio
eu amontoo a ausência das palavras
eu deixo um lugar vazio em
tudo o que é dito é o
lugar da palavra a ser dita para que
o mar cesse
as pedras subam
eu sou o vazio
dessa palavra


* * *


entre chaque mot un désert
à l’intérieur des mots le
désert
et à chaque lettre je
suis reconnaissant
au silence
pour ce qu’il m’a permis de
crier


* * *


oui
c’est moi
qui manque aux mots
non les mots qui me manquent j’ai
dû dormir quand il ne
fallait pas je n’étais pas
présent quan on leur a fait
dire ce que je ne voulais pas
depuis je travaille pour le silence
j’amasse l’absence des mots
je laisse une place vide dans
tout ce qui est dit c’est la
place du mot à dire pour que
la mer s’arrête
les pierres montent
je suis le vide
de ce mot


Combien de noms, L’improviste, 1999.

Eugène Guillevic

abril 22, 2009

Escrever
É pôr
Depor sobre a página,
O que não existia
Antes do sacrifício.

O que foi sacrificado
Não sangra, toco
Ao sair.

E agora,
Ele é legível, destacado
Deste homem que celebrou
Sobre si mesmo
O sacrifício.


Écrire
C’est poser
Déposer sur la page,
Ce qui n’existait pas
Avant le sacrifice.

Ce qui fut sacrifié
Ne saigne pas, moignon
A la sortie.

Et maintenant ,
Il est lisible, détaché
De cet homme qui célébra
Sur lui-même
Le sacrifice.

Blaise Cendrars

abril 3, 2009

Carta

Você me disse se você me escrever
Não bata tudo à máquina
Acrescente uma linha à mão
Uma palavra um nada oh qualquer bobagem
Sim sim sim sim sim sim sim sim

Minha Remington é boa no entanto
Gosto bastante dela e trabalho bem
Minha escrita é limpa e clara
Vê-se muito bem que eu é que a bati

Há lacunas que sou o único a saber fazer
Veja então o olho que tem a minha página
No entanto para seu agrado eu acrescento à tinta
Duas três palavras
E uma grande mancha de tinta
A fim de que você não possa lê-las


Lettre

Tu m’as dit si tu m’écris
Ne tape pas tout à la machine
Ajoute une ligne de ta main
Un mot un rien oh pas grand chose
Oui oui oui oui oui oui oui oui

Ma Remington est belle pourtant
Je l’aime beaucoup et travaille bien
Mon écriture est nette est claire
On voit très bien que c’est moi qui l’ai tapée

Il y a des blancs que je suis seul à savoir faire
Vois donc l’oeil qu’a ma page
Pourtant pour te faire plaisir j’ajoute à l’encre
Deux trois mots
Et une grosse tache d’encre
Pour que tu ne puisses pas les lire


Blaise Cendrars, Feuilles de route, 1924.

dois do Lionel Ray

março 3, 2009

As palavras nos interrogam                                  o tempo
as fere algumas vezes                                    depois nelas
lentamente                                                        se retira.
Elas deitam sobre você como sobre uma cama de ausência
olhares pesados
tateando                  nesse lugar de sono                   onde
tudo                           se apaga                      para sempre
Assim você toca                                  o seu próprio limite
a queimadura do branco                                 lá
onde o silêncio                                          é como o sopro
do último entardecer.


Les mots nous interrogent                le temps
les blesse quelquefois                  puis en eux
lentement                                      se retire.
Ils posent sur toi comme sur un lit d’absence
des regards lourds
à tâtons         dans ce lieu de sommeil       où
tout                    s’éteint                 à jamais
Ainsi tu touches                 à ta propre limite
à la brûlure du blanc                  là
où le silence                 est comme le souffle
du dernier soir.


Eu sei agora quão pouco
dura o coração quão pouco a luz
da manhã e que toda coisa viva
é minúscula e de pouco peso
e que toda fala não vale nada mais
que um hálito um sopro
mas
é bom que as palavras endureçam
assim obscuramente sobre soleiras
e que haja às vezes, aberta
depois de um silêncio,             uma porta.


Je sais maintenant combien peu
dure le coeur combien peu la lumière
du matin et que toute chose vivante
est minuscule et de peu de poids
et que toute parole ne vaut rien de plus
qu’une haleine un souffle
mais
il est bon que les mots durcissent
ainsi obscurément sur des seuils
et qu’il y ait parfois, ouverte
après un silence,                une porte.

sopro de cendrars

janeiro 14, 2009

blaise

Philippe Jaccottet

dezembro 12, 2008

O trabalho do poeta

A obra de um olhar de hora em hora mais fraco
não é mais de sonhar mas de dar forma ao choro,
mas de velar como um pastor e de chamar
tudo o que pode se perder se ele dormir.

Assim, contra a parede clara de verão
(mas não seria isso mais de sua memória),
pela tranqüilidade do dia eu a vejo,
você que se afasta sempre mais, que foge,
eu a chamo, que brilha nos campos obscuros
como outros tempos no jardim, voz ou clarão
(ninguém sabe) ligando os defuntos à infância…
(Está ela morta, feito dama sob a árvore,
seu lampião apagado, sua mala desfeita?
Ou ela vai voltar de debaixo da terra
e eu, eu iria ao seu encontro e eu diria:
“O que você fez do tempo que não se ouvia
nem sua risada nem seus passos nas ruelas?
Era preciso se ausentar sem avisar?
Oh dama! volte agora mesmo para nós…”)

Na sombra e na hora de hoje se mantém oculta,
sem falar, esta sombra de ontem. Este é o mundo.
Não o vemos por muito tempo: o suficiente
para guardar o que cintila e vai sumir,
para chamar ainda e ainda, e tremer
por não ver mais. Assim se esforça o empobrecido,
como um homem de joelhos que vemos lutar
no vendaval para manter seu magro fogo…


Le travail du poète

L’ouvrage d’un regard d’heure en heure affaibli
n’est pas plus de rêver mais de former des pleurs,
mais de veiller comme un berger et d’appeler
tout ce qui risque de se perdre s’il s’endort.

Ainsi, contre le mur éclairé par l’été
(mais ne serait-ce pas plutôt par sa mémoire),
dans la tranquilité du jour je vous regarde,
vous qui vous éloignez toujours plus, qui fuyez,
je vous appelle, qui brillez dans l’herbe obscure
comme autrefois dans le jardin, voix ou lueurs
(nul ne le sait) liant les défunts à l’enfance…
(Est-elle morte, telle dame sous le buis,
sa lampe éteinte, son bagage dispersé?
Ou bien va-t-elle revenir de sous la terre
et moi j’irais au devant d’elle et je dirais:
« Qu’avez-vous fait de tout ce temps qu’on n’entendait
ni votre rire ni vos pas dans la ruelle?
Fallait-it s’absenter sans personne avertir?
Ô dame! revenez maintenant parmi nous… »)

Dans l’ombre et l’heure d’aujourd’hui se tient cachée,
ne disant mot, cette ombre d’hier. Tel est le monde.
Nous ne le voyons pas très longtemps: juste assez
pour en garder ce qui scintille et va s’éteindre,
pour appeler encore et encore, et trembler
de ne plus voir. Ainsi s’applique l’appauvri,
comme un homme à genoux qu’on verrait s’efforcer
contre le vent de rassembler son maigre feu…

eu-língua-ele

novembro 21, 2008

Esta língua que falo e que escrevo, eu não a escolhi, eu não a constituí. Mesmo que o esforço do estilo a flexione um pouco, ela continua antes de tudo uma língua comum, destinada à partilha. A língua é a mais estrita intimidade, em nós, do mais comum. Uma forma de manter e de levar singularmente o que é de todos. De modo que, ao escrever, me parece que eu busco em mim menos de singular que de semelhante, uma maneira, de qualquer modo, de articular minha singularidade ao semelhante e, então, de me fazer presente. Hipoteticamente, eu me cerco de uma comunidade: a dos leitores. O escritor não pára de dizer àqueles que o lerão: “reconheçam-me como um de vocês”, aceitem-me entre o comum dos mortais, dêem-me minha própria vida, da qual sou tão pouco seguro.


Jean-Michel MAULPOIX, Le toucher et la voix, in Adieux au poème, Paris, José Corti, 2005, p. 106-107.

aide-mémoire

novembro 18, 2008

Sempre esqueço de avisar que estamos atendendo, quesito fotografia, no flickr de chez nous. Minha participação? Sair mal nas fotos e inventar títulos patetas.

pique-poesia-nique

outubro 5, 2008