tio Mário

Onze-horas


Quando tio Mário saiu da garagem
empurrando a bicicleta até o portãozinho da frente
numa noite anormalmente fresca de verão
já passava das dez horas
e ele ainda não sabia.

Quando tio Mário montou na bicicleta
levava certamente na cabeça
o ritual de pontualidade britância das onze-horas
acontecendo no pátio de casa
(descobrira na mesma tarde uma senhora
a não muitos quarteirões dali
que lhe daria algumas
já que além de bom papo, o danado
tinha mão boa para plantas)
mas onze da manhã só no dia seguinte
e ele ainda não sabia.

Quando tio Mário pedalava
adentrando escuras ruas e esburacadas
em ritmo de caminhada
eu dormia profundamente
em meu fuso-horário mais perto das onze
sem saber da bicicleta
sem saber das flores
sem saber da noite anormalmente fresca de verão
sem saber de nada
nem que ele ainda
não, ele ainda não sabia.

Quando tio Mário parou
(quantos minutos depois? talvez cinco)
ele ainda não sabia.
Não sabia do poste
em que haveria de se escorar
para recuperar o ritmo cheio de chiado de sua respiração.
Não sabia da ardência
do aperto, do lado esquerdo
ou, como era costume, não levou a sério.
Não sabia que passantes
quaisquer, desconhecidos
sabem sim o que é impulso
de humana compreensão.
Não sabia que seu filho
que não é piloto de Fórmula 1
embora devesse
pudesse chegar em sete minutos
no Instituto de Cardiologia de Porto Alegre
(sete minutos
isso vindo de Canoas
e sem cinto de segurança).
Não sabia que no Túnel da Conceição
também pode acontecer
além de engarrafamentos irremediáveis
tudo o que cabe no silêncio
(inclusive silêncio)
como uma flor que se abre
doze horas antes do combinado
nem que um sobrinho
poeta e incapaz
de distinguir nanquim e lágrima
escreveria um poema
no dia seguinte
isso ele também não sabia.

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6 Respostas to “tio Mário”

  1. Gemaldpg Says:

    Parece-me estar vendo o sorriso dele , e o orgulho por estar sendo citado.

  2. sarmatz Says:

    Poema maravilhoso. Dolorido pacas.

  3. Laura Says:

    Sei bem
    o que é isso.

  4. carol (a segunda) Says:

    lindo poema, diego.
    ouvi tantas histórias dele desde que o vimos daí que embora não o conhecesse senti também em mim a perda.

  5. Maristela Says:

    Diego!
    Muito lindo!
    Lembra seu sorriso e a vontade de viver e vencer obstáculos.
    Nada diferente da irmã q lutou por logos ano pela vida.

    Esta dor vem somar-se a dor que sentimos pela perda de ambos em curto espaço de tempo. Foram apenas 50 dias, primeiro o pai e depois a mãe. Irmã mais velha do tio Mário,cuja dor é viva, fria e dura até hoje.
    Não aprendi viver sem eles e agora, sem mais um…

    Bj carinhoso

    da prima distante

  6. Cleunice Says:

    Mano Mário: Olhando o horizonte, meu olhar se perde num “nada” te procuro e nada. A dor tão grande que ultrapassa as barreiras do “sentir” já nem sei o que é sentir. Há um enorme vazio no meu olhar, no meu coração, no meu pensamento. Eras a razâo do meu viver, do meu trabalho, das minhas angustias, meus medos, minha alegria, felicidade entre outros tantos sonhos que eu tinha em relação a você. Esperança nas “celulas tronco”, que não chegaram a tempo. Bj

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