euclidianas

Euclidianas é o título do décimo-primeiro livro de Eugène Guillevic (1907-1997), um dos mais importantes poetas franceses da segunda metade do século XX, que por mania assinava seus textos apenas como Guillevic. Sua poesia, infelizmente, é pouco conhecida (traduzida) no Brasil.
Nessa obra, publicada em 1967 pela Gallimard, 43 figuras e/ou noções tomadas da geometria euclidiana intitulam e ilustram os 50 poemas curtos que a compõem (o ângulo reto, o círculo, o ângulo obtuso, o plano e a esfera dão vez/voz a mais de um poema), formando uma espécie de compêndio poético de geometria elementar e desvendando, assim, o que há de mais tangencialmente humano em todos (todos?) nós.


paralelas

Vocês gritam no espaço
Que deve separá-las.

Vocês gritam tão forte
Ao menos para o outro espaço
Que vocês cortam em dois,

Como se vocês fossem
Para todo o sempre as únicas
A não poder se encontrar.


ângulo obtuso

Se é por não ter
Poder para penetrar
O que faz abrir-se ainda
Bem mais do que gostaríamos

Ou se é por estar aberto
Bem mais do que gostaríamos
O que tira seu poder
Para penetrar,

Será isso
Uma pergunta?

Se é, a resposta
Está em algum lugar.


esfera



Eu te amo por seres habitual,
Espaço para meus dias,
Para meu olhar os olhos fechados.

Em ti tenho lugar,
Em ti eu existo,
Eu me edifico.

Em ti,
Aquilo que amo, aqueles que amo,
Alguns lamentos.

Em ti silêncio,
Em ti o tempo
Que recolho, resumo.

Sair de ti,
Isso será para não estar mais,
Para não ser mais.


cilindro

Se deixássemos a esfera
Para sairmos por aí,
É através de ti
Que passaríamos.

Imagino mais ou menos
O que isso poderia ser:

Conheci teu comprimento
Em tantos sonhos ruins.


parábola

Vinda de longe

Sempre com o mesmo,
O movimento regular,

Cada passo que dou
Está por antecipação inscrito,
Cada lugar em que toco
Estava predestinado
Mas só por minha história.

Vinda de longe

Para essa volúpia,
Mas tão curta, no topo.

E de novo partir
Em sentido inverso
Igualmente,
Exatamente.


cone truncado

Tão bem tu te pareces
Com muitos entre nós

Que não fomos
Até o topo.


***


parallèles

Vous criez dans l’espace
Qui doit vous séparer.

Vous criez aussi fort
Au moins vers l’autre espace
Que vous coupez en deux,

Comme si vous étiez
A tout jamais les seuls
A ne pouvoir vous rencontrer.


angle obtus

Si c’est de n’avoir pas
Pouvoir de pénétrer
Qui fait s’ouvrir encore
Bien plus qu’on ne voudrait

Ou si c’est d’être ouvert
Bien plus qu’on ne voudrait
Qui vous enlève le pouvoir
De pénétrer,

Est-ce que c’est
Une question?

Si c’en est une, la réponse
Est quelque part.


sphère

Je t’aime d’être habituelle,
Espace pour mes jours,
Pour mon regard les yeux fermés.

En toi j’ai place,
En toi je suis,
Je me bâtis.

En toi,
Cela que j’aime, ceux que j’aime,
Quelques regrets.

En toi silence,
En toi le temps
Que je recueille, je résume.

Sortir de toi,
Ce sera pour n’être plus là,
Pour n’être plus.


cylindre

Si l’on quittait la sphère
Pour s’en aller ailleurs,
C’est à travers toi
Que l’on passerait.

J’imagine à peu près
Ce que ça pourrait être :

J’ai connu ta longueur
Dans tant de mauvais rêves.


parabole

Venant de loin

Avec toujours la même,
La régulière allure,

Chaque pas que je fais
Est par avance inscrit,
Chaque lieu que je touche
Était prédestiné
Mais par ma seule histoire.

Venant de loin

Vers cette volupté,
Mais si courte, au sommet.

Puis repartir
En sens inverse
Pareillement,
Exactement.


cône tronqué

Aussi bien tu ressembles
A beaucoup d’entre nous

Qui ne sont pas allés
Jusqu’à former sommet.

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Uma resposta to “euclidianas”

  1. Anônimo Says:

    meu deus! o das paralelas é lindo!

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