Archive for outubro \29\UTC 2009

Valery Larbaud (1881-1957)

outubro 29, 2009

Ode


Empresta-me teu grande ruído, tua grande marcha tão suave,
Teu deslizar noturno através da Europa iluminada,
Ó trem de luxo! e a angustiante música
Que ressoa ao longo de teus corredores de couro dourado,
Enquanto atrás das portas laqueadas, com trincos de cobre pesado,
Dormem os milionários.
Eu percorro cantarolando teus corredores
E sigo tua corrida para Viena e Budapeste,
Misturando minha voz às tuas cem mil vozes,
Ó Harmonika-Zug!

Eu senti pela primeira vez todo o prazer de viver,
Em uma cabine do Norte-Expresso, entre Wirballen e Pskow.
Deslizávamos através das pradarias onde os pastores,
Ao pé de grupos de grandes árvores iguais a colinas,
Estavam vestidos com peles de ovelhas cruas e sujas…
(Oito horas da manhã no outono, e a bela cantora
Dos olhos violeta cantava na cabine ao lado.)
E vós, grandes lugares através dos quais eu vi passar a Sibéria e os montes do Sâmnio,
A Castela áspera e sem flores, e o mar de Mármara sob uma chuva morna!

Emprestai-me, ó Expresso do Oriente, Sud-Brenner-Bahn, emprestai-me
Vossos milagrosos ruídos surdos e
Vossas vibrantes vozes de delgada corda;
Emprestai-me a respiração leve e fácil
Das locomotivas altas e magras, com movimentos
Tão fluidos, as locomotivas dos rápidos,
Precedendo sem esforço quatro vagões amarelos com letras de ouro
Nas solidões montanhosas da Sérvia,
E, mais longe, através da Bulgária cheia de rosas.

Ah! é preciso que esses ruídos e que esse movimento
Entrem nos meus poemas e digam
Para mim minha vida indizível, minha vida
De criança que não quer saber nada, senão
Esperar eternamente coisas vagas.

 


Ode


Prête-moi ton grand bruit, ta grande allure si douce,
Ton glissement nocturne à travers l’Europe illuminée,
Ô train de luxe ! et l’angoissante musique
Qui bruit le long de tes couloirs de cuir doré,
Tandis que derrière les portes laquées, aux loquets de cuivre lourd,
Dorment les millionnaires.
Je parcours en chantonnant tes couloirs
Et je suis ta course vers Vienne et Budapesth,
Mêlant ma voix à tes cent mille voix,
Ô Harmonika-Zug !

J’ai senti pour la première fois toute la douceur de vivre,
Dans une cabine du Nord-Express, entre Wirballen et Pskow.
On glissait à travers des prairies où des bergers,
Au pied de groupes de grands arbres pareils à des collines,
Etaient vêtus de peaux de moutons crues et sales…
(Huit heures du matin en automne, et la belle cantatrice
Aux yeux violets chantait dans la cabine à côté.)
Et vous, grandes places à travers lesquelles j’ai vu passer la Sibérie et les monts du Samnium,
La Castille âpre et sans fleurs, et la mer de Marmara sous une pluie tiède!

Prêtez-moi, ô Orient-Express, Sud-Brenner-Bahn, prêtez-moi
Vos miraculeux bruits sourds et
Vos vibrantes voix de chanterelle;
Prêtez-moi la respiration légère et facile
Des locomotives hautes et minces, aux mouvements
Si aisés, les locomotives des rapides,
Précédant sans effort quatre wagons jaunes à lettres d’or
Dans les solitudes montagnardes de la Serbie,
Et, plus loin, à travers la Bulgarie pleine de roses.

Ah ! il faut que ces bruits et que ce mouvement
Entrent dans mes poèmes et disent
Pour moi ma vie indicible, ma vie
D’enfant qui ne veut rien savoir, sinon
Espérer éternellement des choses vagues.


De Les Poésies de A. O. Barnabooth, 1908.

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William Cliff

outubro 19, 2009

é uma atração atroz que este húmus todo em turbilhão
se reproduza apenas para de novo devorar-se
no entanto isso fascina e a gente quer sempre durar
e não deixar esta orgia de morte e esta multidão

lutando para se alimentar e para esvaziar a pança
beber e comer esfregar-se um no outro segundo a
imutável lei de um frete que não sabe aonde vai dar
isso fascina e a gente quer sempre dançar a dança

desta orgia de morte de amor e de gritos de triunfo
e de gritos de desprezo para os que na tumba afundam
isso fascina e a gente gosta de voltar à orgia

mesmo sabendo ter que pagar o caro preço um dia
a gente volta para deitar e rolar com a louca raiva
de se entupir beber e fornicar antes do grande naufrágio


c’est un spectacle atroce que tout cet humus qui grouille
et ne se reproduit que pour encor se dévorer
pourtant cela fascine et nous voudrions toujours durer
et ne pas quitter cette orgie de mort et cette foule

luttant pour se nourrir et pour se débonder la panse
boire et manger se frotter l’un sur l’autre selon la
loi immuable d’un charroi qui ne sait où il va
cela fascine et nous voudrions toujours danser la danse

de cette orgie de mort d’amour et de cris de triomphe
et de cris de mépris pour ceux qui tombent dans la tombe
cela fascine et nous aimons retourner à l’orgie

bien que sachant devoir un jour en payer le lourd prix
nous retournons nous y rouler avec la folle rage
de bâfrer boire et forniquer avant le grand naufrage


William Cliff, Autobiographie, 2009.