Archive for junho \30\UTC 2009

Philippe Soupault (1897-1990)

junho 30, 2009

Westwego


Todas as cidades do mundo
oásis dos nossos tédios mortos de fome
oferecem bebidas geladas
às memórias dos solitários e dos maníacos
e dos sedentários
Cidades dos continentes
vocês são bandeiras
estrelas caídas sobre a terra
sem saber muito bem por que
e as amantes dos poetas de agora

Eu passeava em Londres num verão
os pés queimando e o coração nos olhos
perto das paredes pretas perto das paredes vermelhas
perto das grandes docas
onde os policemen gigantes
são arqueados como pontos de interrogação
Podíamos brincar com o sol
que se punha como um pássaro
sobre todos os monumentos
pombo viajante
pombo cotidiano

Eu fui a este bairro que chamamos Whitechapel
peregrinação de minha infância
onde eu encontrei
apenas pessoas muito bem vestidas
e cobertas com cartolas
apenas vendedoras de palitos de fósforos
cobertas com chapéus de palha
que gritavam como as camponesas da França
para atrair os clientes
penny penny penny
Eu entrei num bar
vagão de terceira classe
onde estavam numa mesa
Daisy Mary Poppy
ao lado dos vendedores de peixe
que mascavam tabaco fechando um olho
para esquecer a noite
a noite que se aproximava a passos de lobo
a passos de coruja
a noite e o cheiro do rio e o da maré
a noite rasgando o sono

Era um dia triste
de cobre e de areia
e que corria lentamente entre as lembranças
ilhas desertadas tempestades de poeira
para os animais rugindo de raiva
que baixam a cabeça
como você e como eu
porque nós estamos sozinhos nesta cidade
vermelha e preta
onde todas as lojas são mercearias
onde as melhores pessoas têm os olhos bem azuis

Está calor e hoje é domingo
está triste
o rio é muito infeliz
e os habitantes ficaram em suas casas
Eu passeio perto do Tâmisa
uma só barca desliza para alcançar o céu
o céu imóvel
porque é domingo
e o vento não se levantou
é meio-dia são cinco horas
não sabemos mais aonde ir
um homem canta sem saber por que
como eu caminho
quando somos jovens é para a vida inteira
minha infância enjaulada
neste museu sonoro
no madame Tussaud
é Nick Carter e seu chapéu-coco
ele tem em seu bolso toda uma coleção de revólveres
e algemas brilhantes como injúrias
Perto dele o cavaleiro Bayard
que a ele se assemelha como um irmão
é a história santa e a história da Inglaterra
perto dos grandes criminosos que não têm mais nome

Quando eu saí aonde fui
não há cafés
nem luzes que fazem voar as palavras
não há mesas onde possamos nos apoiar
para não ver nada para não olhar nada
não há copos
não há fumaças
somente as calçadas longas como os anos
onde manchas de sangue florescem à noite
eu vi nessa cidade
tantas flores tantos pássaros
porque eu estava sozinho com minha memória
perto de todas as suas grades
que escondem os jardins e os olhos

nas margens do Tâmisa
numa bela manhã de fevereiro
três ingleses em mangas de camisa
se esgoelavam cantando
trá lá lá trá lá lá trá lá li

Ônibus tea-rooms Leicester-square
eu os reconheço eu nunca os vi
que não em cartões-postais
que minha empregada recebia
folhas mortas
Mary Daisy Poppy
pequenas chamas
neste bar sem olhar
vocês são as amigas que um poeta de quinze anos
admira lentamente
pensando em Paris
à beira de uma janela
uma nuvem passa
é meio-dia
perto do sol
Caminhemos para ser tolos
corramos para ser alegres
riamos para ser fortes

Estranho viajante viajante sem bagagens
eu nunca deixei Paris
minha memória não me deixava nem por um segundo
minha memória me seguia como um cachorrinho
eu era mais besta que as ovelhas
que brilham no céu à meia-noite
está muito calor
eu me digo baixinho e muito seriamente
estou com muita sede estou realmente com muita sede
eu tenho apenas meu chapéu
chave dos campos chave dos sonhos
pai das lembranças
será que eu nunca deixei Paris
mas esta noite eu estou nesta cidade
atrás de cada árvore das avenidas
uma lembrança espreita minha passagem
És tu minha velha Paris
mas esta noite enfim, eu estou nesta cidade
teus monumentos são os marcos quilométricos de meu cansaço
eu reconheço tuas nuvens
que se encaixam nas chaminés
para me dizer adeus ou bom-dia
à noite tu és fosforescente
eu te amo como se ama um elefante
todos os teus gritos são para mim gritos de afeto
eu sou como Aladin no jardin
onde a lâmpada mágica estava acesa
eu não procuro nada
eu estou aqui
eu estou sentando na calçada de um café
e eu sorrio com todos os meus dentes
pensando em todas as minhas famosas viagens
eu queria ir a Nova Iorque ou a Buenos Aires
conhecer a neve de Moscou
partir uma noite a bordo de um grande navio
para Madagascar ou Xangai
subir o Mississipi
eu fui a Barbizon
e eu reli as viagens do capitão Cook
eu me deitei sobre o musgo elástico
eu escrevi poemas perto de uma anêmona-dos-bosques
colhendo as palavras penduradas nos galhos
a pequena estrada de ferro me fazia pensar no transcanadense
e esta noite eu sorrio porque eu estou aqui
diante deste copo que treme
onde eu vejo o universo
rindo
sobre os bulevares nas ruas
todos os marginais passam cantando
as árvores secas tocam o céu
contanto que chova
podemos caminhar sem cansaço
até o oceano ou mais longe
lá o mar bate como um coração
mais perto o afeto cotidiano
das luzes e dos latidos
o céu descobriu a terra
e o mundo é azul
contanto que chova
e o mundo ficará contente
há também mulheres que riem ao me olharem
mulheres cujos nomes eu nem ao menos sei
as crianças gritam nas suas gaiolas do Luxemburgo
o sol mudou bastante de seis meses para cá
há tantas coisas que dançam diante de mim
meus amigos adormecidos nos quatro cantos
eu os verei amanhã
André dos olhos cor de planeta
Jacques Louis Théodore
o grande Paul minha cara árvore
e Tristan cujo riso é um grande pavão
vocês estão vivos
eu esqueci seus gestos e sua verdadeira voz
mas esta noite eu estou sozinho eu sou Philippe Soupault
eu desço lentamente o boulevard Saint-Michel
eu não penso em nada
eu conto os lampadários que conheço tão bem
me aproximando do Sena

perto das Pontes de Paris

e eu falo bem alto
todas as ruas são afluentes
quando amamos este rio onde corre todo o sangue de Paris
e que é sujo como uma puta suja
mas que é também o Sena simplesmente
com quem falamos como fosse nossa mãe
eu estava muito perto dele
que se ia sem lamento e sem barulho
sua lembrança apagada era uma doença
eu me apoiava no parapeito
como nos ajoelhamos para rezar
as palavras caíam como lágrimas
doces como balas
Bom-dia Rimbaud como vai você
Bom-dia Lautréamont como você tem se comportado
eu tinha vinte anos nem um centavo a mais
meu pai nasceu em Saint-Malo
e minha mãe viu o dia na Normandia
quanto a mim eu fui batizado no Canadá
Bom-dia eu
Os vendedores de tapetes e as belas garotas
que vagam à noite pelas ruas
aqueles que guardam nos olhos a doçura das lâmpadas
aqueles a quem a fumaça de um cachimbo e o copo de vinho
parecem mesmo assim um pouco insípidos
me conhecem sem saber meu nome
e me dizem ao passarem Bom-dia você
e no entanto há em meu peito
pequenos sóis que giram com um barulho de chumbo
grande gigante do bulevar
homem gentil do palácio de justiça
o raio é mais bonito na primavera
Seus olhos meu raio são tesouras
motoristas ainda me restam sete cartuchos
nem um a mais nem um a menos
nenhum deles é para vocês
vocês são feios como interrogatórios
e eu leio em todas as paredes
tapetes tapetes tapetes e tapetes
os grandes comboios das experiências
perto de nós perto de mim
palitos de fósforo suecos

As noites de Paris têm esses cheiros fortes
que deixam os arrependimentos e as dores de cabeça
e eu sabia que era tarde
e que a noite
a noite de Paris ia terminar
como os dias de festa
tudo estava bem organizado
e ninguém dizia palavra
eu esperava os três tiros
o sol se levanta como uma flor
que chamamos eu acho dente-de-leão
as grandes vegetações mecânicas
que não esperavam que os encorajamentos
subissem e caminhassem
fielmente
não se sabe mais se é preciso compará-los
às trepadeiras
ou aos gafanhotos
o cansaço se dissipou
eu vejo os marinheiros que saem
para limpar o carvão
os mecânicos dos rebocadores
que enrolam um primeiro cigarro
antes de acender a caldeira
lá em uma ponte
um capitão tira seu lenço
para secar o rosto
por costume
e eu o primeiro esta manhã
eu digo mesmo assim
Bom-dia
Philippe Soupault


Westwego


Toutes les villes du monde
oasis des nos ennuis morts de faim
offrent des boissons fraîches
aux mémoires des solitaires et des maniaques
et des sédentaires
Villes des continents
vous êtes des drapeaux
des étoiles tombées sur la terre
sans très bien savoir pourquoi
et les maîtresses des poètes de maintenant

Je me promenais à Londres un été
les pieds brûlants et le cœur dans les yeux
près des murs noirs près des murs rouges
près des grands docks
où les policemen géants
sont piqués comme des points d’interrogation
On pouvait jouer avec le soleil
qui se posait comme un oiseau
sur tous les monuments
pigeon voyageur
pigeon quotidien

Je suis allé dans ce quartier que l’on nomme Whitechapel
pèlerinage de mon enfance
où je n’ai rencontré
que des gens très bien vêtus
et coiffés de chapeaux hauts de forme
que des marchandes d’allumettes
coiffées de canotiers
qui criaient comme les fermières de France
pour attirer les clients
penny penny penny
Je suis entré dans un bar
wagon de troisième classe
où s’étaient attablés
Daisy Mary Poppy
à côté des marchands de poissons
qui chiquaient en fermant un œil
pour oublier la nuit
la nuit qui approchait à pas de loup
à pas de hibou
la nuit et l’odeur du fleuve et celle de la marée
la nuit déchirant le sommeil

C’était un triste jour
de cuivre et de sable
et qui coulait lentement entre les souvenirs
îles désertées orages de poussière
pour les animaux rugissants de colère
qui baissent la tête
comme vous et comme moi
parce que nous sommes seuls dans cette ville
rouge et noire
où toutes les boutiques sont des épiceries
où les meilleurs gens ont les yeux très bleus

Il fait chaud et c’est aujourd’hui dimanche
il fait triste
le fleuve est très malhereux
et les habitants sont restés chez eux
Je me promène près de la Tamise
une seule barque glisse pour atteindre le ciel
le ciel immobile
parce que c’est dimanche
et que le vent ne s’est pas levé
il est midi il est cinq heures
on ne sait plus où aller
un homme chante sans savoir pourquoi
comme je marche
quand on est jeune c’est pour la vie
mon enfance en cage
dans ce musée sonore
chez madame Tussaud
c’est Nick Carter et son chapeau melon
il a dans sa poche toute une collection de revolvers
et des menottes brillantes comme des jurons
Près de lui le chevalier Bayard
qui lui ressemble comme un frère
c’est l’histoire sainte et l’histoire d’Angleterre
près des grands criminels qui n’ont plus de noms

Quand je suis sorti où suis-je allé
il n’y a pas de cafés
pas de lumières qui font s’envoler les paroles
il n’y a pas de tables où l’on peut s’appuyer
pour ne rien voir pour ne rien regarder
il n’y a pas de verres
il n’y a pas de fumées
seulement les trottoirs longs comme les années
où des taches de sang fleurissent le soir
j’ai vu dans cette ville
tant de fleurs tant d’oiseaux
parce que j’étais seul avec ma mémoire
près de toutes ses grilles
qui cachent les jardins et les yeux

sur les bords de la Tamise
un beau matin de février
trois Anglais en bras de chemise
s’égosillaient à chanter
trou la la trou la la trou la laire

Autobus tea-rooms Leicester-square
je vous reconnais je ne vous ai jamais vus
que sur des cartes postales
que recevait ma bonne
feuilles mortes
Mary Daisy Poppy
petites flammes
dans ce bar sans regard
vous êtes les amies qu’un poète de quinze ans
admire doucement
en pensant à Paris
au bord d’une fenêtre
un nuage passe
il est midi
près du soleil
Marchons pour être sots
courons pour être gais
rions pour être forts

Étrange voyageur voyageur sans bagages
je n’ai jamais quitté Paris
ma mémoire ne me quittait pas d’une semelle
ma mémoire me suivait comme un petit chien
j’étais plus bête que les brebis
qui brillent dans le ciel à minuit
il fait très chaud
je me dis tout bas et très sérieusement
j’ai très soif j’ai vraiment très soif
je n’ai que mon chapeau
clef des champs clef des songes
père des souvenirs
est-ce que j’ai jamais quitté Paris
mais ce soir je suis dans cette ville
derrière chaque arbre des avenues
un souvenir guette mon passage
C’est toi mon vieux Paris
mais ce soir enfin, je suis dans cette ville
tes monuments sont les bornes kilométriques de ma fatigue
je reconnais tes nuages
qui s’accrochent aux cheminées
pour me dire adieu ou bonjour
la nuit tu es phosphorescent
je t’aime comme on aime un éléphant
tous tes cris sont pour moi des cris de tendresse
je suis comme Aladin dans le jardin
où la lampe magique était allumée
je ne cherche rien
je suis ici
je suis assis à la terrasse d’un café
et je souris de toutes mes dents
en pensant à tous mes fameux voyages
je voulais aller à New York ou à Buenos Aires
connaître la neige de Moscou
partir un soir à bord d’un paquebot
pour Madagascar ou Shang-haï
remonter le Mississipi
je suis allé à Barbizon
et j’ai relu les voyages du capitaine Cook
je me suis couché sur la mousse élastique
j’ai écrit des poèmes près d’une anémone sylvie
en cueillant les mots qui pendaient aux branches
le petit chemin de fer me faisait penser au transcanadien
et ce soir je souris parce que je suis ici
devant ce verre tremblant
où je vois l’univers
en riant
sur les boulevards dans les rues
tous les voyous passent en chantant
les arbres secs touchent le ciel
pourvu qu’il pleuve
on peut marcher sans fatigue
jusqu’à l’océan ou plus loin
là-bas la mer bat comme un cœur
plus près la tendresse quotidienne
des lumières et des aboiements
le ciel a découvert la terre
et le monde est bleu
pourvu qu’il pleuve
et le monde sera content
il y a aussi des femmes qui rient en me regardant
des femmes dont je ne sais même pas le nom
les enfants crient dans leur volière du Luxembourg
le soleil a bien changé depuis six mois
il y a tant de choses qui dansent devant moi
mes amis endormis aux quatre coins
je les verrai demain
André aux yeux couleur de planète
Jacques Louis Théodore
le grand Paul mon cher arbre
et Tristan dont le rire est un grand paon
vous êtes vivants
j’ai oublié vos gestes et votre vraie voix
mais ce soir je suis seul je suis Philippe Soupault
je descends lentement le boulevard Saint-Michel
je ne pense à rien
je compte les réverbères que je connais si bien
en m’approchant de la Seine

près des Ponts de Paris

et je parle tout haut
toutes les rues sont des affluents
quand on aime ce fleuve où coule tout le sang de Paris
et qui est sale comme une sale putain
mais qui est aussi la Seine simplement
à qui on parle comme à sa maman
j’étais tout près d’elle
qui s’en allait sans regret et sans bruit
son souvenir éteint était une maladie
je m’appuyais sur le parapet
comme on s’agenouille pour prier
les mots tombaient comme des larmes
douces comme des bonbons
Bonjour Rimbaud comment vas-tu
Bonjour Lautréamont comment vous portez-vous
j’avais vingt ans pas un sou de plus
mon père est né à Saint-Malo
et ma mère vit le jour en Normandie
moi je fus baptisé au Canada
Bonjour moi
Les marchands de tapis et les belles demoiselles
qui traînent la nuit dans les rues
ceux qui gardent dans les yeux la douceur des lampes
ceux à qui la fumée d’une pipe et le verre de vin
semblent tout de même un peu fades
me connaissent sans savoir mon nom
et me disent en passant Bonjour vous
et cependant il y a dans ma poitrine
des petits soleils qui tournent avec un bruit de plomb
grand géant du boulevard
homme tendre du palais de justice
la foudre est-elle plus jolie au printemps
Ses yeux ma foudre sont des ciseaux
chauffeurs il me reste encore sept cartouches
pas une de plus pas une de moins
pas une d’elles n’est pour vous
vous êtes laids comme des interrogatoires
et je lis sur tous les murs
tapis tapis tapis et tapis
les grands convois des expériences
près de nous près de moi
allumettes suédoises

Les nuits de Paris ont ces odeurs fortes
que laissent les regrets et les maux de tête
et je savais qu’il était tard
et que la nuit
la nuit de Paris allait finir
comme les jours de fêtes
tout était bien rangé
et personne ne disait mot
j’attendais les trois coups
le soleil se lève comme une fleur
qu’on appelle je crois pissenlit
les grandes végétations mécaniques
qui n’attendaient que les encouragements
grimpent et cheminent
fidèlement
on ne sait plus s’il faut les comparer
au lierre
ou aux sauterelles
la fatigue s’est elle envolée
je vois les mariniers qui sortent
pour nettoyer le charbon
les mécaniciens des remorqueurs
qui roulent une première cigarette
avant d’allumer la chaudière
là-bas dans un pont
un capitaine sort son mouchoir
pour s’éponger la tête
par habitude
et moi le premier ce matin
je dis quand même
Bonjour
Philippe Soupault

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um p(r)o(bl)ema novo

junho 5, 2009

Ralo


Ocorre que me escorro
ultimamente
pelos ralos
em ralos pelos
emaranhados tufos
deste louro
que me é caro
e que na superfície
sempre mais lunar
do crânio
do couro
fica raso e raro
avaro
cheio de intervalos
e entradas
sem saída:
duas enseadas
de pura testa
frontes de uma guerra
piloglandular
funesta
perdida


Restam-me as quimeras
da finasterida
a ilusão dos anti-queda
no transplante uma esperança
uma espera
uma fé publicamente inassumida
a esmola dos que têm menos
os fantasmas nos espelhos
e o consolo de que os brancos
pelo menos esses
quando vierem
serão poucos