Archive for março \14\UTC 2009

sem fio

março 14, 2009

Tem a menina Suelen, que mora nas bandas do outro lado e anda sempre de cá para lá com o seu exemplar do meu Carrossel. Um desses dias deixou na minha caixa de correio uma versão alemã. Deu no que deu:


Unerwartet

Wenn das Leben plötzlich Magie werdt
wird wichtig das lebt sein
am alltägmöglichsten

Wäsche waschen
Haare schneiden lassen
von reich sein träumen
oder verrückt
(das Ganze noch
wenig ist)

um der Eindruck zu haben
da es immer sich lohnet


Reconheci a criança mais pelo corpo que pela voz. Não foi descaso, isso não faço, princípio. Meu alemão, mein Freund, é que é nulo. Mas nada de satisfeitices, pensei comigo, e logo manejei uns cliques e encaminhei. Destino? O amigo Rogério. Ele é referência (a única que tenho além da garotinha) na língua da salsicha bock, e pedi que trouxesse de volta ao berço a tal missiva, coisa rápida. Expliquei pouco, aleguei curiosidade e pouca ciência, ele fez:


Inesperado

Quando a vida torna-se mágica repentinamente
se torna importante viver
o mais rotineiro possível

lavar a roupa
cortar o cabelo
sonhar ser rico
ou louco
(a coisa toda ainda
é pouco)

a fim de se ter a impressão
que é sempre lucrativo


Disso resulta algo como um enteado, priminho caolho daquele da página 34.

“Lucrativo”? Dizer eu não diria, mas gostei da brincadeira. Achei espanto, fagulha, beijo na bochecha, confusão de olho.

E digo mais: deu vontade de um abraço em cada um, retribuinte.

Que pago pouco, isso não escondo, mas pago sempre com o coração.

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dois do Lionel Ray

março 3, 2009

As palavras nos interrogam                                  o tempo
as fere algumas vezes                                    depois nelas
lentamente                                                        se retira.
Elas deitam sobre você como sobre uma cama de ausência
olhares pesados
tateando                  nesse lugar de sono                   onde
tudo                           se apaga                      para sempre
Assim você toca                                  o seu próprio limite
a queimadura do branco                                 lá
onde o silêncio                                          é como o sopro
do último entardecer.


Les mots nous interrogent                le temps
les blesse quelquefois                  puis en eux
lentement                                      se retire.
Ils posent sur toi comme sur un lit d’absence
des regards lourds
à tâtons         dans ce lieu de sommeil       où
tout                    s’éteint                 à jamais
Ainsi tu touches                 à ta propre limite
à la brûlure du blanc                  là
où le silence                 est comme le souffle
du dernier soir.


Eu sei agora quão pouco
dura o coração quão pouco a luz
da manhã e que toda coisa viva
é minúscula e de pouco peso
e que toda fala não vale nada mais
que um hálito um sopro
mas
é bom que as palavras endureçam
assim obscuramente sobre soleiras
e que haja às vezes, aberta
depois de um silêncio,             uma porta.


Je sais maintenant combien peu
dure le coeur combien peu la lumière
du matin et que toute chose vivante
est minuscule et de peu de poids
et que toute parole ne vaut rien de plus
qu’une haleine un souffle
mais
il est bon que les mots durcissent
ainsi obscurément sur des seuils
et qu’il y ait parfois, ouverte
après un silence,                une porte.