28 anos sem perder a graça

Sei que não é o que se espera de uma criança normal, mas algo que marcou minha infância foi o disco Chico Anysio Ao Vivo, de 1975 (o dia em que for possível baixá-lo será, sem dúvida, o dia em que absolutamento TUDO poderá ser encontrado na internet). Muito mais que um disco do Ary Toledo ou do Juca Chaves, o álbum é praticamente uma forma arcaica de stand up comedy, gênero que anda tão em alta hoje em dia. E há ali algumas piadas (várias, na verdade) memoráveis, embora ninguém para quem eu conte ache graça. E eu sempre conto. Tem a da ligeireza (Uma mulher de minissaia escorrega ao atravessar a rua e cai com as pernas abertas. Levanta rápido, e ao perceber que um desconhecido se diverte com a situação, tenta sair por cima: “Viu a ligeireza?”, ela pergunta. “Vi”, diz ele, “mas não sabia que tinha esse nome”.), também a dos tomates (O homem morava num país onde havia pena de morte. Flagrado roubando três tomates na feira, foi a julgamento. “Tu vai ser enforcado”, sentenciou o juiz. “Mas pelos tomates?”, ele questiona. “Não, pelo pescoço”.), e a do suco de laranja (“Doutor, como faço para não engravidar?”, pergunta uma mulher ao seu médico. “Ah, isso é simples: suco de laranja”. “Suco de laranja? Mas… antes ou depois?”. E o médico: “Em vez de”.), além de várias frases que uso no meu cotidiano sem fazer muito esforço, ou expressões que adapto levemente às circunstâncias, como piadas internas que não quero compartilhar com ninguém. Sem contar, é claro, os comentários que eu não entendia (me pareciam herméticos e, portanto, ainda mais interessantes) e só vim a entender anos depois (por exemplo, o de que “Bobby Moore, com esse nome, pode roubar bracelete que não dá cana”).
Mas acontece que essas piadas ruins são uma forma muito particular de eu dizer para mim mesmo (ou de perceber eu mesmo) que há ali algo de permanente, algo profundo, como uma essência, uma intuição para a falta de bom senso, uma satisfação em rir sozinho e por dentro, algo que me acompanha e, de certa maneira, eterniza (ou atualiza) minha infância. E é bacana pensar nisso na véspera do meu aniversário, e hoje passei o dia pensando nisso, não por medo de ficar cada vez mais velho e adulto, que não sou muito tentado a esse gênero de escapismos, mas por simplesmente, e do modo mais sem graça possível, lembrar que eu continuo, enfim, sendo eu mesmo.

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10 Respostas to “28 anos sem perder a graça”

  1. r. Says:

    http://www.mp3mp4mp5players.net/portal/audio-mp3-show-de-chico-anisio.html

  2. r. Says:

    http://lowcostmusic.blogspot.com/2006/07/cmp3showschico-anisio-ao-vivo-1975-um.html

  3. r. Says:

    te mando os parabéns e fico com a saudade.
    te amo

  4. r. Says:

    o primeiro link é o disco completo.

  5. amora Says:

    feliz aniversário querido, lindo post. enquanto lia ouvia aqui no rodris,
    viu a rapideza?
    beijos

  6. amora Says:

    feliz aniversário querido, lindo post. enquanto lia ouvia aqui no rodris,
    viu a ligeireza?
    beijos

  7. Diego Grando Says:

    DEUS EXISTE.

  8. blackpowerx Says:

    E aí Diego, eu sou o Bernardo Moraes, a gente participou junto daquela entrevista para a Aplauso.

    Em primeiro lugar, parabéns. Depois, eu gosto muito de humor, de uma maneira geral, e não achei as piadas ruins, não. Parece que quanto mais boba a piada mais a gente ri.

  9. Diego Grando Says:

    Bernardo, obrigado pela solidariedade. =)

  10. Tweets that mention 28 anos sem perder a graça « ativastentativas -- Topsy.com Says:

    […] This post was mentioned on Twitter by Cristian Barreto. Cristian Barreto said: @bmazzeo o link: http://bit.ly/9zxl78 […]

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