Archive for dezembro \19\UTC 2008

vendo peixe

dezembro 19, 2008

Só pra avisar que a Livraria Cultura está dando 20% de bandeja na compra de um carrossel de fim de ano, coisa de deixar faceiras as barbichas falsas de todo e qualquer aprendiz pão-duro de Noel, verdadeira mão na roda para esse período em que – anos de experiência ensinam – vão-se as idéias e o dinheiro, ficam os amigos secretos.


Até 31 de dezembro, ok?

Anúncios

Philippe Jaccottet

dezembro 12, 2008

O trabalho do poeta

A obra de um olhar de hora em hora mais fraco
não é mais de sonhar mas de dar forma ao choro,
mas de velar como um pastor e de chamar
tudo o que pode se perder se ele dormir.

Assim, contra a parede clara de verão
(mas não seria isso mais de sua memória),
pela tranqüilidade do dia eu a vejo,
você que se afasta sempre mais, que foge,
eu a chamo, que brilha nos campos obscuros
como outros tempos no jardim, voz ou clarão
(ninguém sabe) ligando os defuntos à infância…
(Está ela morta, feito dama sob a árvore,
seu lampião apagado, sua mala desfeita?
Ou ela vai voltar de debaixo da terra
e eu, eu iria ao seu encontro e eu diria:
“O que você fez do tempo que não se ouvia
nem sua risada nem seus passos nas ruelas?
Era preciso se ausentar sem avisar?
Oh dama! volte agora mesmo para nós…”)

Na sombra e na hora de hoje se mantém oculta,
sem falar, esta sombra de ontem. Este é o mundo.
Não o vemos por muito tempo: o suficiente
para guardar o que cintila e vai sumir,
para chamar ainda e ainda, e tremer
por não ver mais. Assim se esforça o empobrecido,
como um homem de joelhos que vemos lutar
no vendaval para manter seu magro fogo…


Le travail du poète

L’ouvrage d’un regard d’heure en heure affaibli
n’est pas plus de rêver mais de former des pleurs,
mais de veiller comme un berger et d’appeler
tout ce qui risque de se perdre s’il s’endort.

Ainsi, contre le mur éclairé par l’été
(mais ne serait-ce pas plutôt par sa mémoire),
dans la tranquilité du jour je vous regarde,
vous qui vous éloignez toujours plus, qui fuyez,
je vous appelle, qui brillez dans l’herbe obscure
comme autrefois dans le jardin, voix ou lueurs
(nul ne le sait) liant les défunts à l’enfance…
(Est-elle morte, telle dame sous le buis,
sa lampe éteinte, son bagage dispersé?
Ou bien va-t-elle revenir de sous la terre
et moi j’irais au devant d’elle et je dirais:
« Qu’avez-vous fait de tout ce temps qu’on n’entendait
ni votre rire ni vos pas dans la ruelle?
Fallait-it s’absenter sans personne avertir?
Ô dame! revenez maintenant parmi nous… »)

Dans l’ombre et l’heure d’aujourd’hui se tient cachée,
ne disant mot, cette ombre d’hier. Tel est le monde.
Nous ne le voyons pas très longtemps: juste assez
pour en garder ce qui scintille et va s’éteindre,
pour appeler encore et encore, et trembler
de ne plus voir. Ainsi s’applique l’appauvri,
comme un homme à genoux qu’on verrait s’efforcer
contre le vent de rassembler son maigre feu…

caligra.jpg

dezembro 2, 2008

caligra