Archive for junho \30\UTC 2008

borracha ponteira

junho 30, 2008

Por 25 centavos comprei um pedacinho de lembrança. Trouxe comigo apertada na mão, e a mão dentro do bolso, da papelaria até em casa revivendo a minha forma de escrever ao contrário alguns momentos da vida, de rabiscar a vontade de dizer pra em seguida fazê-la em farelos e soprá-la, ajudando com a mão que era pra não deixar vestígios na última folha do caderno ou na fórmica verde-água das mesas da sala de aula. Hoje não queria ter vindo. Michele e Diego. Nem toda lágrima tem sal. Por 25 centavos (e a balconista nem sabia disto) descobri que apagar é só mais um jeito de lembrar.

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vertical vertigem

junho 21, 2008

pó de parede

junho 15, 2008


Conjugalismos à parte, o livro é pura delícia verbal. Dá pra testar aqui, inclusive.

a propósito

junho 14, 2008

Como consigo um fornecedor de Hélio (o gás, não o dono da chácara) em Porto Alegre?

fazer um agá

junho 13, 2008

Para o terror da minha mãe, meu processo de alfabetização foi totalmente construtivista, o que me proporcionou a primeira viagem sem a família, lá com meus seis anos, na lógica de conhecer o mundo antes de falar (escrever) sobre ele. O mundo que eu devia experienciar era uma fazenda, na verdade um sítio, na verdade uma chácara, onde aproveitei pra cometer meu primeiro delito, o furto de um xaxim, que eu nem sabia muito bem pra que diabos funcionava e que acabou por inutilizar minha mochila e a bagulhada que havia dentro.
Só depois de retornar é que comecei a garatujar minha primeira frase:


A chácara é do Hélio.


Alguém tem idéia do que significa um agá maiúsculo pra uma criança, não um agá qualquer de dois traços verticais e um horizontal, mas um agá cursivo à la manuscrito medieval, com direito a todo tipo de firula?
Obrigado, senhoras pedagogas, obrigado, tia Giovana, pela consideração com minha motricidade fina.

carrossel de estréia

junho 11, 2008

Pois então depois de muito fazer em prol de, não sem dificuldades e desconfianças e hesitações, finalmente vem aí. Guardei tudo muito bem guardado, um tanto de mania misturada a trabalho e retrabalho, fiquei bem escondidinho esse tempo todo, mais ouvindo que falando, à espera da hora certa, certa ao menos pra mim, pra finalmente pôr em circulação o meu primeiro livro de poemas. Por respeito a tudo que gosto e que me estimula a criar, nunca acreditei que um livro estivesse no mesmo plano de uma árvore e de um filho, sou cético demais pra gratuidades. Esse livro é o primeiro de alguém que decidiu se dedicar a isso, a escrever também o segundo, o terceiro, a correr riscos por isso num tempo e num espaço em que a literatura, mais ainda a poesia, perde seu pouco espaço e vira, aos olhos da maioria, mera perda de tempo. Peço desculpas pelo jogo de palavras, mas é que entender e assumir isso, meu amigo, demora bem mais que este parágrafo.

Não faço aqui um desabafo. Muito menos um manifesto.

Desencantado carrossel sai em julho pela Não Editora, tudo sendo feito com muito cuidado, atenção aos detalhes, insistência no acerto. As informações do lançamento vou largando aos poucos, mas antecipo música boa, laranja sobre verde e engenharia poética, enfim, nada que já não tenha sido de outra forma dito por aqui.

um sonho

junho 3, 2008

De repente uma casa, paredes brancas, piso frio com rejuntes largos de cimento que esfarela, forro de madeira clara. Pessoas, diversas pessoas com poucos trajes, dando a entender que estamos numa praia. Entre elas se destaca um filósofo, que trabalha num notebook e fala alto sobre política, fazendo menção a um partido, provavelmente o PTB. Eu estou deitado, um colchonete no chão num canto dessa grande sala, mero observador da iminente querela político-litorânea. Surge de cima, em pé, uma negra de voz grave e com rastafáris tendendo ao ruivo, algo entre Whoopi Goldberg e alguma professora universitária de inglês, e me entrega panfletos do PSTU. O filósofo se exaspera ao vê-la, dá uma risada irônica e alega ter uma música para a situação, ferindo os ouvidos de todos com os versos de Pacato Cidadão num volume além do bom senso e da aparente capacidade dos speakers do notebook. Uma sirene surpreende a todos, e mais ainda quando percebemos que uma viatura freia bruscamente no nosso pátio, possivelmente maltratando a grama, que nada tem a ver com a bagunça da casa. A música pára; alguém guarda um naco de maconha no bolso da calça. A suposta polícia irrompe na casa, um rapaz que parece meu irmão reage gritando “vocês não têm esse direito” com convicção suficiente para mostrar que entende de leis. Só um deles usa farda, e ainda assim com bermuda e sandália de couro, a identificação arrancada do peito, mas nenhum demonstra se importar com aquela fala. Ficam estáticos, apenas olhando. Eu levanto, calço meu chinelo lilás e, junto com os outros, em silêncio, deixo a casa.