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Roland Dubillard

abril 29, 2008

Abertura de la boîte à outils, conjunto de 222 (!) poemas publicado em 1985.


A mão é um labirinto com cinco ramos.
Ela se perde, ela é viva nos cinco.
Cada dedo busca só para si alcançar nem sabe o quê.
Ela se perde nesse labirinto que ela é mesmo para ela
E, se os cinco dedos encontram a outra mão,
Perdida também no labirinto de ser cinco,
Se os cinco dedos se alcançam e aparece o dez,
Nada mais sairá dessas duas mãos nodadas:
O nó é um labirinto condenado.
É por isso, mantenha sua mão na coleira.
Ela pode continuar a ser este agradável animal doméstico
Que se vê correr sobre o teclado dos pianos:
Ela não tem orelha e no entanto por prazer, parece,
É ela que vai: “vai buscar, cachorro!” e lhe devolve a música.


La main est un labyrinthe à cinq branches.
Elle se perd, elle est vivante dans les cinq.
Chaque doigt cherche pour lui seul à atteindre il ne sait quoi.
Elle se perd dans ce labyrinthe qu’elle est même pour elle
Et, si les cinq doigts recontrent l’autre main,
Perdue aussi dans le labyrinthe d’être cinq,
Si les cinq doigts s’atteignent et que paraît le dix,
Rien ne sortira plus de ces deux mains nouées :
Le noœd est un labyrinthe condamné.
C’est pourquoi, tenez votre main en laisse.
Elle peut rester cet agréable animal domestique
Qu’on voit courir sur le clavier des pianos :
Elle n’a pas d’oreille et pourtant par plaisir, semble-t-il,
C’est elle qui va : « va chercher, mon chien ! » et vous rapporte la musique.

apologie de la timidité

abril 24, 2008

Ah ! Qu’il est bon de rester en silence dans les coins de la vie quotidienne, de manger mes propres mots et de les déglutir avec tant de finesse que mes lèvres n’arrivent pas même à bouger. Douce et douloureuse camarde, incontournable image tatouée sur mon visage, sur mon dos, sur mes ongles rongées, la timidité n’est pas l’absence d’opinion, ni la prétention, ni le manque de confiance ou d’audace… C’est seulement la façon que j’ai trouvée de mieux observer les choses et de ne pas être dévoré par les autres.

dura vida de poeta

abril 15, 2008

Viver só de poesia é algo bem menos romântico e muito mais corrido do que se pode imaginar, mas é a prova de que este ainda pode ser um meio de existência. É assim, pelo menos, para o poeta Paulo Henriques Britto. Além de escrever, Britto se divide entre o trabalho editorial (traduz em média três livros por ano para a Companhia das Letras) e o acadêmico, desenvolvendo duas linhas de pesquisa (uma sobre poesia brasileira contemporânea, outra sobre tradução poética) na PUC-Rio, onde é professor de graduação e pós-graduação. Somam-se ainda as apresentações, orelhas, quartas-capas e releases, e parece que sobra pouco tempo para o poeta sair por aí assobiando as belezas da vida, ou curtindo uma depressãozinha básica, vez que outra flertando com a Musa, como mandaria o figurino. Apesar disso, ele consegue responder e-mails com uma rapidez espantosa, e com a maior gentileza e amabilidade, além de trocar idéias com o garoto aqui, me concedeu a mini-entrevista a seguir.

As formas tradicionais e o verso medido – arquitetura milimétrica e precisa – me dão a impressão de uma poesia de circunspecção, que não deve ser gritada nem cantada, mas lida em voz baixa, tendendo ao grave, aproveitando ao máximo o silêncio que circunda e completa cada verso, cada palavra, cada fonema. O discurso metalingüístico assume um papel, se não principal, de acentuada importância: o próprio poema como motivo, ou o ato criador, ou a angústia criativa, enfim, poesia sobre poesia. O vocabulário, porém, como talvez se pudesse pensar, não é de uma erudição hermética, nem soa a palavras compradas em antiquários: quando quer ser coloquial, acha o tom preciso da forma e soa com a naturalidade impressionante de um contrabandista que fala através de sonetos decassílabos; quando quer se elevar, consegue fazê-lo sem revelar o truque, sem eruditismos ou verborréia gratuita. No geral, seus poemas não se entregam com facilidade, mas se deixam revelar aos poucos, como deve ser a boa poesia.

Seu quarto livro, Macau (2003, poesia), faturou o Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira 2004, sendo o primeiro (e, por enquanto, o único) livro de poemas a ganhar o prêmio criado em 2003. Antes dele vieram Liturgia da matéria (1982, poesia), Mínima lírica (1989, poesia) e Trovar claro (1997, poesia). Depois dele, Paraísos artificiais (2004, contos) e Tarde (2007, poesia).

 

(9 de novembro)

Tudo resolvido. O campo de pouso
até que é razoável. Mas o tal de
Carlão, hein, vou te contar. É nervoso,
não sei; parece que sofre de mal de

Parkinson, ou coisa que o valha. Mas isso
é o de menos. O pior é que o “Almirante”
desde terça tomou chá de sumiço.
Não sei que fim levou; é preocupante.

Chegou a encomenda de Lisboa.
O número é 318.
A senha: “O olho esquerdo de Camões

não vale uma epopéia”. (Essa é boa!)
Não agüento mais ter que jantar biscoito.
No mais, tudo bem. Aguardo instruções.


Prêmios literários são um grande reconhecimento da crítica e da mídia. Em que medida representam um impacto para o público? Ajudam a conquistar leitores?

Sem dúvida, faz diferença. Eu não diria que necessariamente ajuda a conquistar leitores, pois imagino que muitas pessoas compram apenas o livro premiado, mas depois, por não terem hábito de ler poesia, nunca mais voltam a se interessar pelo poeta em questão. Mas é possível que umas poucas pessoas que descobrem o poeta através do prêmio se tornem suas leitoras fiéis.

Você tem noção de quanto vende? Que tipo de retorno costuma receber do público?

Realmente, não tenho muito a idéia em relação aos números. Meu livro premiado, Macau, vendeu bem a primeira tiragem de três mil exemplares, não sei se esgotou, mas como o livro foi adotado no vestibular, foi feita uma outra edição, em papel mais barato, a ser vendida a um preço bem mais baixo, e ela também vendeu direitinho para um livro de poesia. Quanto a retorno, recebo um número razoável de e-mails. Muitos são de alunos querendo que eu dê uma espécie de cola; alguns me pedem um resumo do meu livro de poemas, como se tal coisa fizesse sentido — uma vez, acredite ou não, foi uma professora que me pediu esse absurdo. Mas há também mensagens mais gratificantes, de poetas jovens que gostaram do meu trabalho, ou até de leitores que não são poetas.

Você tem um método para escrever? E rituais, manias? O poema costuma surgir da idéia, da imagem ou do som?

Não tenho propriamente um método, nem rituais, tirando o fato de que prefiro fazer os primeiros rascunhos com caneta-tinteiro em cadernos espiral, um velho fetiche meu. O ponto de partida varia. Eis os mais comuns: um esquema métrico abstrato que surge na minha cabeça, uma determinada combinação de sílabas átonas e tônicas; um esquema de estrofação novo, com muitas rimas, que crie dificuldades estimulantes; uma frase ou expressão que brota na minha cabeça de repente; um verso de outro poeta lido ou relembrado; um fragmento que anotei num caderno de anos atrás. Muito raramente, uma imagem visual.


O PRESTIDIGITADOR

Este papel que se oferece virgem
ao bel-prazer da pena e tinta
é todo teu, só teu, como não é,
nem nunca foi, a tua vida.

A gozosa vertigem dos começos —
esse friozinho bom no estômago —
aqui encontra lastro, ainda que tênue,
na realidade tão incômoda.

E se esta página inaugural
negar-te a façanha de um verso,
um gesto rápido há de restaurar
a virgindade do caderno.

As vértebras flexíveis da espiral
não vão guardar nenhum vestígio
(como fazem as lombadas traiçoeiras)
deste pequeno infanticídio.

Somente a nova página primeira
testemunhou a recaída.
Tenta outra vez: Este papel, etc.
(Restam noventa e nove ainda.)


As formas tradicionais são um meio de equilíbrio ou de desequilíbrio da linguagem? Em que momento da composição elas entram?

São ao mesmo tempo um meio de equilíbrio e um estímulo à criação. O mais normal é eu já começar com uma forma específica em mente — a decisão de escrever um soneto ou uma sextina ou alguma forma inventada. É um pouco menos comum, mas também acontece às vezes de eu começar a escrever uma forma, o poema não dar certo e eu utilizar os mesmos versos iniciais para fazer um poema com uma forma diferente.

Metapoesia: poesia para poetas e acadêmicos, teoria literária, narcisismo poético ou simplesmente poesia? Como fica o leitor no meio disso?

Bem, um dos temas principais dos sonetos de Shakespeare é o fato de Shakespeare estar escrevendo sonetos para eternizar a beleza do amigo. Mas mesmo antes dele vamos encontrar entre os provençais poemas que discorrem sobre a própria forma. E se a gente recua no tempo acaba batendo na Grécia. Ou seja: a metapoesia não é nenhuma novidade. O que é novidade, a partir do modernismo e cada vez mais de lá para cá, é o poema se tornar o tema principal, quase exclusivo, da poesia. Sim, isso tende a afastar os leitores que não têm um interesse muito específico por poesia. A poesia é e sempre foi um dos grandes temas da poesia, mas também não deve ser o único.

Primeira pessoa do singular pressupõe poesia confessional? O afastamento do eu resolve essa questão?

Não necessariamente confessional. É possível fazer uma poesia do eu que não seja confessional nem narcisista. E, em última análise, como dizia Eliot, para poder se afastar da personalidade é preciso que a gente tenha personalidade. Não acho necessário nem ficar o tempo todo remoendo as próprias espinhas nem, pelo contrário, só escrevendo poemas sobre objetos concretos, citando outros poemas e livros e filmes de modo obsessivo. A subjetividade é inevitável e é um dos grandes temas da poesia, mas não precisa ser o único tema, à exclusão de todos os outros, nem tampouco tem de ser reprimida a todo custo como se ser subjetivo fosse um pecado mortal.

 

UM POUCO DE STRAUSS

Não escreva versos íntimos, sinceros,
como quem mete o dedo no nariz.
Lá dentro não há nada que compense
todo esse trabalho de perfuratriz,
só muco e lero-lero.

Não faça poesias melodiosas
e frágeis como essas caixinhas de música
que tocam a “Valsa do Imperador”.
É sempre a mesma lengalenga estúpida,
sentimental, melosa.

Esquece o eu, esse negócio escroto
e pegajoso, esse mal sem remédio
que suga tudo e não dá nada em troca
além de solidão e tédio:
escreve pros outros.

Mas se de tudo que há no vasto mundo
só gostas mesmo é dessa coisa falsa
que se disfarça fingindo se expressar,
então enfia o dedo no nariz, bem fundo,
e escreve, escreve até estourar. E tome valsa.

Yves Bonnefoy

abril 9, 2008

Sem apresentações; direto ao assunto.



O pouco d’água

A este floco
Que sobre a minha mão pousa, eu desejo
Assegurar o eterno
Fazendo da minha vida, do meu calor,
Do meu passado, desses dias de hoje,
Um instante simplesmente: este instante aqui, sem limites.

Mas ele já não é mais
Que um pouco d’água, que se perde
Na bruma dos corpos que vão pela neve.



Le peu d’eau

A ce flocon
Qui sur ma main se pose, j’ai désir
D’assurer l’éternel
En faisant de ma vie, de ma chaleur,
De mon passé, de ces jours d’à présent,
Un instant simplement : cet instant-ci, sans bornes.

Mais déjà il n’est plus
Qu’un peu d’eau, qui se perd
Dans la brume des corps qui vont dans la neige.

(des)exercício de linguagem

abril 5, 2008

De uma lista de 56 substantivos tirados ao acaso, arranjei um soneto em decassílabos heróicos. O objetivo único era fazer as palavras caberem na forma, sem a pretensão de fazer um poema, mas já há quem diga que alguns versos se abeiram da genialidade, pela concisão e pelo poder sugestivo. Eu diria: calma lá, hein?!


parede cafezal atum atol
ofensa afano afago impaciência
miséria pára-brisa chuva sol
tapete sal semente confidência


insânia incompreensão omeprazol
pá rede babaçu noite latência
família dança mágoa onisciência
estado esteira estufa rouxinol


final astúcia escopo sangue fio
carregamento susto mão olheira
desordem neve fósforo pavio


viral vitória vítima videira
assinatura cheque arrepio
balão felicidade som besteira



Caso alguém se interesse em propor um outro arranjo com as mesmas palavras, aí vão elas, listadas em ordem alfabética: afago, afano, arrepio, assinatura, astúcia, atol, atum, babaçu, balão, besteira, cafezal, carregamento, cheque, chuva, confidência, dança, desordem, escopo, estado, esteira, estufa, família, felicidade, final, fio, fósforo, impaciência, incompreensão, insânia, latência, mágoa, mão, miséria, neve, noite, ofensa, olheira, omeprazol, onisciência, pá, pára-brisa, parede, pavio, rede, rouxinol, sal, sangue, semente, sol, som, susto, tapete, videira, vítima, vitória, vitral.