Archive for março \29\UTC 2008

no sentido do termo

março 29, 2008

um cara com a língua
grudada
num poste de metal
congelado de inverno
no atual estado
dos estudos literários
ninguém duvida que se trata
de um poeta
pois faz uso
especial
fora do comum
ausente de utilidade
da própria língua

W.H. Auden, ‘A mão do artista’, p.68, abre aspas

março 22, 2008

Na Universidade de Poesia dos meus sonhos, o currículo seria o seguinte:

1) Além do estudo da língua inglesa, seria obrigatório o estudo de pelo menos uma língua antiga, provavelmente grego ou hebraico, e de dois idiomas modernos;
2) Milhares de versos nesses idiomas teriam de ser memorizados;
3) A biblioteca não contaria com obras de crítica literária, e o único exercício crítico pedido aos alunos seria a composição de paródias;
4) Cursos de prosódia, retórica e filologia comparada seriam obrigatórios a todos os alunos, e todos deveriam eleger três cursos das seguintes disciplinas: matemática, história natural, geologia, meteorologia, arqueologia, mitologia, liturgia, culinária;
5) Cada aluno teria de cuidar de um animal doméstico e cultivar um pequeno jardim.

obrigado por avisar

março 21, 2008

Do ex-tenista Dácio Campos, comentando o jogo entre David Nalbandian e Mardy Fish no Sportv:
– A rede o Fish conhece. Sem trocadilho.

Sim, claro, sem trocadilho.

dentro

março 19, 2008

Tempo, vida, poesia é uma compilação em livro de uma série de oito entrevistas que Drummond concedeu à jornalista Lya Cavalcanti, na PRA-2 (Rádio Ministério da Educação e Cultura). Memórias, curiosidades e frustrações, num clima de bate-papo sem muita intenção, vão se alternando e se unido umas às outras.
Segue um trecho em que ele fala sobre seu início literário.

Que país é esse, dentro do país em que vivemos, onde tudo se passa mais dentro de nós mesmos do que fora de nós? A gente escreve um poema, por exemplo (uma poesia, como se falava antes do modernismo). Três, quatro amigos o lêem na roda do café sentado, e o comentam: gostei, não gostei, fraquinho, ótimo, convém mudar este verso. A revista o publica, daí a um mês. Mais três ou quatro pessoas dizem o que leram, e arredonda-se o vácuo em torno de nossa criação sofrida e amada, que nos daria a glória. Neste faz-de-conta de vida literária esgotam-se quatro, cinco anos de faculdade e vadiação. Depois, cada um dos cúmplices do poeta vai para seu destino na vida, e não acontece mais nada. Dou a você um quadro da atividade literária na província dos anos 20. A literatura vivia em mim, não existia lá fora.

Ainda bem que agora TUDO mudou.

fugaz

março 14, 2008

Sinto-me leve.
Perdi o peso
da juventude
e descobri uma forma simples
de entender as coisas.
Tão fácil ser silêncio
e a tudo responder
com um sacudir de ombros
abraços rápidos
à distância
(preferencialmente sem contato)
apertos
(melhor, acenos)
de mãos
e o não-dizer.
Como se o mundo
fosse uma grande verdade
e a forma de enfrentá-lo
fosse dizer sim,
é mesmo uma grande verdade,
não tenho culpa
de ter virado pluma.

angústia criativa

março 10, 2008

W. H. Auden, dando um depoimento sobre ser, ver-se e sentir-se poeta:

“Aos olhos dos outros, um homem é poeta se tiver escrito um bom poema. Aos próprios olhos, ele é poeta no momento em que faz a última revisão num novo poema. No momento anterior, era apenas um poeta em potencial; no momento seguinte, é um homem que parou de escrever poesia, talvez para sempre.”

cigarrinho

março 5, 2008

disfarce no dedo
a tragada no cigarro
amarela o medo