Archive for fevereiro \27\UTC 2008

“entre”

fevereiro 27, 2008

Tá lá na página 62 de A Tradução vivida, de Paulo Rónai:
“Bom exemplo da expressividade dos sinas tipográficos é o caso das aspas. Além de encerrar uma citação e delimitar títulos, elas têm um uso ideológico quando denunciam apropriação indébita, falsa qualidade. (…) Talvez devido a essa complexidade, muita gente de pouca instrução usa as aspas à toa, atribuindo-lhes função honorífica ou decorativa. Não é raro pessoas colocarem entre aspas a própria assinatura.”

“Realmente” genial.

causa-efeito ou cada um com seus problemas

fevereiro 26, 2008

o dedo do bebê
se enamora da tomada
no caminho até a parede
choque elétrico é palmada

o dedo do vovô
enfiado na narina
é remédio contra tédio
bem melhor que cafeína

o dedo do meu pé
de poeta é laudatório
uma pedra no caminho
um tropeço obrigatório

o dedo do leitor
nem aí pra angústia alheia
pega o poema pelo pé
da página e folheia

o dedo de deus
endiabrado no que faz
desliga o televisor
e descansa em paz

dupla mista

fevereiro 20, 2008

raquete na cara
(que a cabeça logo esqueça!)
quando casar, sara

Vahé Godel

fevereiro 19, 2008

Nascido em 1931, o poeta suíço Vahé Godel acumula em seu currículo uma porção livros de poemas e centenas de traduções da poesia armênia para o francês.
Quase impossível achar seus poemas soltos pelo mundo virtual, mas dá pra ter uma pequena idéia neste vídeo de 1998, gravado no Festival Internacional de Poesia de Medellín, e também na minha tradução do poema Voix blanche.


Voz branca

(obscurece tua morada murmura uma voz branca) rompidos
todos os circuitos quebradas todas as lâmpadas
– globos neons
lustres spots –
(te deslumbre o escuro!)
subsiste apenas
um fósforo
uma só vela branca branca
como as paredes
de uma célula
individual
de um centro espacial
de uma sala de recuperação
de um oratório ou
de um necrotério
branca como
as neves eternas
do inominável
como o uniforme
das Guardiãs
do Silêncio
sim
mais branca ainda
que uma noite em claro
(sopra a vela
fecha os olhos
contempla o horizonte)


Voix blanche

(obscursis ta demeure murmure une voix blanche) rompus
tous les circuits brisées toutes les lampes
– globes néons
lustres spots –
(t’éblouisse le noir !)
ne subsiste
qu’une allumette
une seule bougie blanche blanche
comme les parois
d’une cellule
individuelle
d’un centre spatial
d’une salle de réveil
d’un oratoire ou
d’une morgue
blanche comme
les neiges éternelles
de l’innommable
comme l’uniforme
des Gardiennes
du Silence
oui
plus blanche encore
qu’une nuit blanche
(souffle la bougie
ferme les yeux
contemple l’horizon)

inútil exceção decimal

fevereiro 15, 2008

Um fato que me entristece é que eu não uso relógio de pulso. Um: incapacidade de conviver pacificamente com algo pesando num braço (ou em só um dos braços, o problema é de equilíbrio, ok?). Dois: desnecessidade de facilitar a vida das minhas compulsões (o celular ao menos vai no bolso, sendo necessário tirá-lo dali pra consultar a hora a cada cinco ou dez minutos, o que é consideravelmente mais desconfortável e desestimulante do que simplesmente olhar para o braço).
A única coisa que me obrigaria a uma mudança de comportamento automática e permanente sobre esse assunto seria a concretização do meu projeto de relógio decimal. O nome é auto-explicativo. Se meus cálculos não estiverem muito errados, a cada cinco dias ele entraria, por um e somente por um instante preciso, em sincronia perfeita com os outros relógios (ia dizer “do mesmo fuso”, mas a noção de fuso horário precisa ser revista pra esse caso).
Por enquanto, esbarro no meu total desconhecimento técnico e motor pra fabricar sozinho a engenhoca nas suas devidas minúcias e com um mínimo de qualidade (não basta só funcionar, tem que ser BONITO). Como não tenho nenhum amigo relojoeiro que me quebre esse galho, tento reunir coragem (uma mescla de retórica e mise-en-scène) pra entrar numa relojoaria e explicar seriamente o meu projeto (esse tipo de assunto tem que ser tratado com toda a seriedade possível, pra que faça sentido). E sigo sem relógio, só imaginando o dia em que alguém, depois de me perguntar as horas, dissesse: “mas esse relógio tá errado!”. Aí sim eu poderia mostrar meu braço e comentar: “ah, desculpa, é que meu relógio marca as horas sobre dez”.
Seria pura poesia. A própria sagração do Eu, diria Manoel de Barros, o mestre das coisas inúteis.

pungente imprevisto

fevereiro 13, 2008

Tinha prometido pra mim que ia manter uma maior regularidade nas postagens. Acontece que a idéia anotada à noite pra virar post essa manhã decidiu se transformar em poema. Relutei um pouco, pensei até em me arriscar num poema em prosa, mas esbocei um verso e acabei cedendo, é, vai virar poema mesmo.
Tudo isso porque ontem, numa troca de canal, vi a largada de uma corrida de, meu irmão depois me disse o nome, Stock Car. Alguns segundos foram suficientes pra uma doce tristeza repentina, motivos desconhecidos a serem investigados.
Acabei escrevendo um metapost.

maiorias II

fevereiro 12, 2008

a poesia
é a maior
das minorias

maiorias I

fevereiro 11, 2008

Homem, branco, destro, heterossexual, não-fumante, carnívoro, alfabetizado, maior de idade, urbano, física e mentalmente saudável, formação católica, pais ainda vivos e casados, usuário da Microsoft.

Ainda bem que não sou contista.

acerto de contas

fevereiro 7, 2008

Situado na rua Conselheiro Lafaiete, Copacabana, Rio de Janeiro, o edifício Luiz Felipe não chama a atenção por sua arquitetura ou pelo seu luxo. Se depender disso, ficará eternamente invisível aos que passam por essa quase-esquina com a rua Raul Pompéia. Aliás, poucas coisas podem ser mais insignificantes aos olhos desatentos do que o encontro de uma cidade interiorana de Minas com um escritor do século XIX.
Acontece que, por 25 anos, o prédio de número 60 abrigou o poeta Carlos Drummond de Andrade, até agosto de 1987, quando morreu. No apartamento 701 nasceu grande parte da obra de Drummond, que, diz-se, era quietão e caseiro (ou, simplesmente, mineiro?) e, portanto, faca e queijo em mãos, trabalhava por ali mesmo. Um endereço que, mais metafórica do que financeiramente falando, vale ouro.

Ainda antes de comprar a passagem para o Rio, este já era um endereço de visita obrigatória, o que aconteceu no último dia 30. Câmera na mão, não esperava conseguir mais do que uma foto da fachada do prédio, e talvez de alguma placa que fizesse alusão ao fato, nos moldes daquela da Nascimento Silva 107 vista na véspera. Mal tirei a primeira foto, um homem que mais adiante se identificou como seu João, zelador do prédio, veio perguntar o que eu queria. Boa pergunta. O que eu queria? Uma foto de um prédio meio sem graça, de uma placa que eu não sabia se existia, de algum vulto poético? Não sabia bem.
Optei por responder com uma pergunta retórica, dando uma olhada pra cima como se procurasse algum conhecido numa das sacadas: “foi no 701 que morou o Drummond, não?”. Ele fez um a-ham e perguntou se eu era jornalista (?!?), mas minha falta de jeito nem precisou de palavras para que ele sacasse que eu não estava ali por obrigação profissional. Aí ele entendeu. Não sei se pelo meu rosto, pela minha respiração ou pelo meu silêncio, mas seu João me olhou com simpatia (era um abraço de amigo que ele me dava com os olhos) e abriu o portão: “só não pode subir pros andares, mas pode circular por aqui”. Nem consegui agradecer.
Entramos e, depois de uma rápida apresentação e da confirmação da ausência de uma plaquinha sequer, seu João me disse que aquele hall não tinha mudado nada nada nada, nem o elevador, nem as poltronas, nem o tapete, enfim, tudo bem igualzinho, e logo me deixou só e à vontade, comprovando que tinha entendido o que se passava.

Andei por ali, fotografei a escada de serviço, entrei e saí do elevador umas sete vezes, tentei acreditar que espíritos existem e que aparecem com mais facilidade pelos espelhos e ajeitei demoradamente meu cabelo, eu que nem tenho esse costume, só pra ver se ele aparecia.
Sentei numa das poltronas e inventei de pensar no que a poesia ainda poderia significar, se é que já tenha significado algum dia, e se valia a pena toda a angústia de escrever um poema, e depois outro, e depois outro, e depois reunir todos eles e achar um título bem bonito e um pouco surpreendente, que não-diga mais que diga mas que faça algum sentido, e depois ter a pretensão de que outras pessoas leiam o que vai ali, aquele punhado de coisas inúteis espremidas em algumas linhas, como uma laranja que chora o próprio suco. Então pensei que, talvez naquela mesma poltrona, alguém bem maior já tivesse pensado em tudo aquilo e tivesse dito “bom, vamos lá, poesia é assim mesmo”, sem imaginar que, anos mais tarde, alguém fosse estar ali, uma lágrima solitária se perdendo no imenso do tapete, por sua causa. Aí eu entendi.
Na saída, seu João me deu um tapinha nas costas e disse: “vê se o senhor manda um livro seu pra mim, é só escrever no envelope que é pra portaria que não tem erro”. Eu prometi que mandaria, claro, assim que saísse um, e ele disse que ficaria esperando. Um poeta, ele.

Depois de mais um muito obrigado e um tchau, o carro partiu. Antes, porém, de me perder pelas ruas de Copacabana, pude virar para trás e ver que, da calçada do edifício Luiz Felipe, seu João ainda acenava com o braço direito. Ao seu lado, um velhinho de óculos, meio sem entender o que se passava, resolveu, também ele, talvez por cortesia, talvez por compaixão, acenar para este mero aprendiz. Seu João nem percebeu.

beijo de amassar nariz

fevereiro 3, 2008

foto: Carol Bensimon