Archive for janeiro \21\UTC 2008

carioca

janeiro 21, 2008

Quando, amanhã, eu desembarcar no Rio de Janeiro, terão se completado exatamente 36 horas que vi Meu nome não é Johnny. Até lá, espero que o sotaque eshperrrto que venho treinando ininterruptamente se mantenha firme. E ainda tenho dez dias pra desenvolvê-lo e voltar pra casa chiando feito chaleira cheia.
Do filme, vale a recomendação. Já tinha lido, há uns dois ou três verões, o livro do Guilherme Fiuza, que apesar de não ser assim brilhante em termos de estilo pode ser considerado um bom livro: por si só, a vida do João Guilherme Estrella dá uma boa história, de um cara de classe média (alta?) que, sem muitas pretensões a não ser se divertir com os amigos, virou um dos maiores traficantes e cheiradores do país. Um feito, no mínimo, digno de nota.
Do Rio, vale saber que foi segunda casa de uns bons como Bandeira, Drummond e Gessinger, só pra ficar numa Santíssima Trindade, e berço dos Hermanos. Enfim, lugar em que me interessa, mais do que ver, curtir, descansar ou conhecer (coisas que, me parece, são praticamente uma obrigação do espírito Rio-turístico), simplesmente estar, assim intransitivo mesmo, vivendo o faz-de-conta de que, ao menos por alguns dias, eu e eles estamos de igual pra igual.

(des)desejos

janeiro 14, 2008

buraco de engano
jogar moeda é impossível
em poço artesiano

ceee

janeiro 9, 2008

agora é tarde
o banho que seja frio
(caiu uma fase)

velho truque do mestre

janeiro 7, 2008

Já falaram bastante do uso que Drummond faz da enumeração, que alguns dizem ‘enumeração caótica’, muitas vezes na forma de anáforas (repetição de palavras em início de versos), ou de epístrofes (repetição em fim de versos). Eu sei, os nomes são feios, mas são o que menos importa.
Puxando da memória, fiz um rápido e despretensioso levantamento de um determinado ‘padrão drummondiado de quebra de enumerações’, na minha opinião, bem mais interessante do que as enumerações em si. A estrutura é simples: mudança da posição do último elemento a ser repetido (do fim para o início, ou para o meio, ou o contrário), o que soa como uma sutil surpresa verbal, sem invencionice nem pedantismo, mas que funciona às maravilhas. Sem contar, ainda, os ganhos com ritmo e metro proporcionados pelos deslocamentos, que devem ser considerados caso a caso, o que não farei (ao menos) agora.
Vale comentar que esse truque mexe com diversas posições frasais (uma hora é o sujeito que troca de lugar com o predicado, outra é um adjunto que troca com o núcleo, e há vezes que até a pontuação entra no jogo), o que me faz duvidar um pouco do caráter ‘caótico’ da enumeração e de sua quebra.
Eis os trechos, do mais simples ao mais sofisticado. Vou deixar que falem por si.

já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode
(José, in José)

o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
(José, in José)

E fomos educados para o medo
Cheiramos flores de medo
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.
(O Medo, in A Rosa do Povo)

Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
(Morte do Leiteiro, in A Rosa do Povo)

Aos operários: A vistes?
Não, dizem os operários.

Aos boiadeiros: A vistes?
Dizem não os boiadeiros.
Acaso a vistes, doutores?
Mas eles respondem: Não.
(O Mito, in A Rosa do Povo)

um haikai

janeiro 1, 2008

lençol no varal
um fantasma assobiando
assusta o quintal