tudo ZH

Maio 27, 2009 por Diego Grando

A matéria de capa do Segundo Caderno da Zero Hora de hoje trata dos novos autores do RS, ou da nova onda literária, ou da – acabei de descobrir – geração 80 da literatura gaúcha. O panorama da juventude literária foi traçado pelo Carlos André Moreira, jornalista e editor de livros da ZH, com quem conversei por e-mail.

zh80

A função toda pode ser lida aqui, e continua aqui. Tem também a opção folhear-as-páginas-e-fazer-de-conta-que-está-lendo-o-jornal-de-verdade, mas se você realmente quer isso, vai ter que aprender sozinho. Ok?
E de brinde, as entrevistas completas com cada um dos autores envolvidos foram lá pro blog Mundo Livro. A minha, facilitando a caminhada, está bem aqui.

sobre seguir ordens

Maio 15, 2009 por Diego Grando

mije

Eugène Guillevic

Abril 22, 2009 por Diego Grando

Escrever
É pôr
Depor sobre a página,
O que não existia
Antes do sacrifício.

O que foi sacrificado
Não sangra, toco
Ao sair.

E agora,
Ele é legível, destacado
Deste homem que celebrou
Sobre si mesmo
O sacrifício.


Écrire
C’est poser
Déposer sur la page,
Ce qui n’existait pas
Avant le sacrifice.

Ce qui fut sacrifié
Ne saigne pas, moignon
A la sortie.

Et maintenant ,
Il est lisible, détaché
De cet homme qui célébra
Sur lui-même
Le sacrifice.

seriedade e vida a dois

Abril 19, 2009 por Diego Grando

[...]

– Tá, será que a gente pode falar sério agora?
– Mas é claro. Um, dois, três e já.

Blaise Cendrars

Abril 3, 2009 por Diego Grando

Carta

Você me disse se você me escrever
Não bata tudo à máquina
Acrescente uma linha à mão
Uma palavra um nada oh qualquer bobagem
Sim sim sim sim sim sim sim sim

Minha Remington é boa no entanto
Gosto bastante dela e trabalho bem
Minha escrita é limpa e clara
Vê-se muito bem que eu é que a bati

Há lacunas que sou o único a saber fazer
Veja então o olho que tem a minha página
No entanto para seu agrado eu acrescento à tinta
Duas três palavras
E uma grande mancha de tinta
A fim de que você não possa lê-las


Lettre

Tu m’as dit si tu m’écris
Ne tape pas tout à la machine
Ajoute une ligne de ta main
Un mot un rien oh pas grand chose
Oui oui oui oui oui oui oui oui

Ma Remington est belle pourtant
Je l’aime beaucoup et travaille bien
Mon écriture est nette est claire
On voit très bien que c’est moi qui l’ai tapée

Il y a des blancs que je suis seul à savoir faire
Vois donc l’oeil qu’a ma page
Pourtant pour te faire plaisir j’ajoute à l’encre
Deux trois mots
Et une grosse tache d’encre
Pour que tu ne puisses pas les lire


Blaise Cendrars, Feuilles de route, 1924.

sem fio

Março 14, 2009 por Diego Grando

Tem a menina Suelen, que mora nas bandas do outro lado e anda sempre de cá para lá com o seu exemplar do meu Carrossel. Um desses dias deixou na minha caixa de correio uma versão alemã. Deu no que deu:


Unerwartet

Wenn das Leben plötzlich Magie werdt
wird wichtig das lebt sein
am alltägmöglichsten

Wäsche waschen
Haare schneiden lassen
von reich sein träumen
oder verrückt
(das Ganze noch
wenig ist)

um der Eindruck zu haben
da es immer sich lohnet


Reconheci a criança mais pelo corpo que pela voz. Não foi descaso, isso não faço, princípio. Meu alemão, mein Freund, é que é nulo. Mas nada de satisfeitices, pensei comigo, e logo manejei uns cliques e encaminhei. Destino? O amigo Rogério. Ele é referência (a única que tenho além da garotinha) na língua da salsicha bock, e pedi que trouxesse de volta ao berço a tal missiva, coisa rápida. Expliquei pouco, aleguei curiosidade e pouca ciência, ele fez:


Inesperado

Quando a vida torna-se mágica repentinamente
se torna importante viver
o mais rotineiro possível

lavar a roupa
cortar o cabelo
sonhar ser rico
ou louco
(a coisa toda ainda
é pouco)

a fim de se ter a impressão
que é sempre lucrativo


Disso resulta algo como um enteado, priminho caolho daquele da página 34.

“Lucrativo”? Dizer eu não diria, mas gostei da brincadeira. Achei espanto, fagulha, beijo na bochecha, confusão de olho.

E digo mais: deu vontade de um abraço em cada um, retribuinte.

Que pago pouco, isso não escondo, mas pago sempre com o coração.

dois do Lionel Ray

Março 3, 2009 por Diego Grando

As palavras nos interrogam                                  o tempo
as fere algumas vezes                                    depois nelas
lentamente                                                        se retira.
Elas deitam sobre você como sobre uma cama de ausência
olhares pesados
tateando                  nesse lugar de sono                   onde
tudo                           se apaga                      para sempre
Assim você toca                                  o seu próprio limite
a queimadura do branco                                 lá
onde o silêncio                                          é como o sopro
do último entardecer.


Les mots nous interrogent                le temps
les blesse quelquefois                  puis en eux
lentement                                      se retire.
Ils posent sur toi comme sur un lit d’absence
des regards lourds
à tâtons         dans ce lieu de sommeil       où
tout                    s’éteint                 à jamais
Ainsi tu touches                 à ta propre limite
à la brûlure du blanc                  là
où le silence                 est comme le souffle
du dernier soir.


Eu sei agora quão pouco
dura o coração quão pouco a luz
da manhã e que toda coisa viva
é minúscula e de pouco peso
e que toda fala não vale nada mais
que um hálito um sopro
mas
é bom que as palavras endureçam
assim obscuramente sobre soleiras
e que haja às vezes, aberta
depois de um silêncio,             uma porta.


Je sais maintenant combien peu
dure le coeur combien peu la lumière
du matin et que toute chose vivante
est minuscule et de peu de poids
et que toute parole ne vaut rien de plus
qu’une haleine un souffle
mais
il est bon que les mots durcissent
ainsi obscurément sur des seuils
et qu’il y ait parfois, ouverte
après un silence,                une porte.

samba-enredo particular

Fevereiro 22, 2009 por Diego Grando

Este carnaval não vai ser samba não
Ser samba não
Este carnaval não vai ser rua não
Ser rua não
Este carnaval não vai ser mole não
Ser mole não
Não vai ser samba (não vai)
Não vai ser rua (não vai)
Não vai ser mole, não vai ter Momo

Ai, meu bem, aquele tempo
O mês de fevereiro
Calor o dia inteiro
Eu com dinheiro
Mas sem empolgação
Em reclusão desde sexta
Achando a vida tão besta
Abrindo a porta pra solidão

Refrão

Agora é outra, meu bem,
A realidade
Você nem sabe
Me dá vontade
De andar pelo salão
Que eu nem conheço (bem sei)
Com fantasia de rei
Ou de palhaço, ou de ladrão

Refrão

o que aprendi em Londres

Janeiro 23, 2009 por Diego Grando

roll

cada um com sua Sibéria

Janeiro 16, 2009 por Diego Grando

Depois de trocar as frentes frias da Argentina por uma especialmente congelante da Sibéria, embarco amanhã no Eurostar e faço minha primeira viagem subaquática de trem. Aproveito a temática férrea e compartilho o longo trecho que traduzi da longuíssima Prosa do Transiberiano (no original, La Prose du transsibérien et de la petite Jehanne de France), do Blaise Cendrars, 1912. É só o início, só, iniciozinho, mas já dá pra ter uma idéia do clima e da fluidez da coisa.


A PROSA DO TRANSIBERIANO

Naquele tempo eu estava na adolescência
Eu tinha apenas dezesseis anos e já não me lembrava
Mais de minha infância
Eu estava a 16.000 léguas do lugar de meu nascimento
Eu estava em Moscou, na cidade dos mil e três campanários e das sete estações
E não me bastavam sete estações e mil e três torres
Pois minha adolescência era tão ardente e tão louca
Que meu coração, alternadamente, ardia como o templo de Éfeso ou como a Praça Vermelha de Moscou
Quando o sol se põe.
E meus olhos iluminavam caminhos antigos.
E eu era já tão mau poeta
que não sabia ir até o fim.

O Kremlin era como um imenso bolo tártaro
Com cobertura de ouro,
Com as grandes amêndoas das catedrais todas brancas
E o ouro melífluo dos sinos…
Um velho monge me lia a lenda de Novgorod
Eu tinha sede
E eu decifrava caracteres cuneiformes
Depois, de repente, as pombas do Espírito Santo voavam sobre a praça
E minhas mãos voavam também, com barulhos de albatroz
E isso eram as últimas reminiscências do último dia
Da derradeira viagem
E do mar.

No entanto, eu era péssimo poeta.
Eu não sabia ir até o fim.
Eu tinha fome
E todos os dias e todas as mulheres nos cafés e todos os copos
Eu teria desejado bebê-los e quebrá-los
E todas as vitrines e todas as ruas
E todas as casas e todas as vidas
E todas as rodas das carruagens que giravam em turbilhão sobre as pedras ruins
Eu teria desejado moer todos os ossos
E arrancar todas as línguas
E liquefazer todos esses grandes corpos estranhos e nus sob as roupas que me enlouquecem…
Eu pressentia a vinda do grande Cristo vermelho da revolução russa…
E o sol era uma ferida ruim
Que se abria como um braseiro.

Naquele tempo eu estava na adolescência
Eu tinha apenas dezesseis anos e já não me lembrava mais de minha infância
Eu estava em Moscou, onde eu queria me nutrir de chamas
E não me bastavam torres e estações que constelavam meus olhos
Na Sibéria ribombava o canhão, era a guerra
A fome o frio a peste a cólera
E as águas limosas do Amor carregavam milhões de carcaças
Em todas as estações eu via partirem os últimos trens
Ninguém podia mais partir pois não se vendiam mais passagens
E os soldados que se iam teriam tanto desejado ficar…
Um velho monge me cantava a lenda de Novgorod.

Eu, o mau poeta que não queria ir a lugar algum, eu podia ir a qualquer lugar
E também os comerciantes ainda tinham dinheiro suficiente
Para irem tentar fazer fortuna.
Seu trem partia todas as sextas de manhã.
Dizia-se que havia muitos mortos.
Um trazia cem caixas de despertadores e de cucos da Floresta Negra
Um outro, caixas de chapéus, cilindros e um sortimento de saca-rolhas de Sheffield
Um outro, caixões de Malmö cheios de latas de conserva e de sardinhas em óleo
Depois havia muitas mulheres
Mulheres, entrepernas de aluguel que também podiam servir
Caixões
Todas elas eram patenteadas
Dizia-se que havia muitos mortos para lá
Elas viajavam com desconto
E todas tinham uma conta corrente no banco.

Ora, uma sexta de manhã, foi enfim a minha vez
Era dezembro
E parti eu também para acompanhar o viajante joalheiro que se dirigia a Harbin
Nós tínhamos dois assentos no expresso e 34 baús de jóias de Pforzheim
Bugiganga alemã “Made in Germany”
Ele tinha me dado roupas novas, e subindo no trem eu havia perdido um botão
– Eu me lembro, eu me lembro, pensei nisso com frequência desde então –
Eu deitava sobre os baús e estava tão feliz de poder brincar com o browning niquelado que ele também havia me dado

Eu estava tão feliz confiante
Eu me sentia brincando de salteador
Nós havíamos roubado o tesouro de Golconda
E nós íamos, graças ao transiberiano, escondê-lo do outro lado do mundo
Eu devia defendê-lo dos ladrões do Ural que haviam atacado os saltimbancos de Júlio Verne
Dos tungúsicos, os boxers da China
E os raivosos pequenos mongóis do Grande-Lama
Ali Babá e os quarenta ladrões
E os fiéis do terrível Velho da Montanha
E sobretudo, dos mais modernos
Os ratos de hotel
E os especialistas dos expressos internacionais.


LA PROSE DU TRANSSIBÉRIEN

En ce temps-là j’étais en mon adolescence
J’avais à peine seize ans et je ne me souvenais
Déjà plus de mon enfance
J’étais à 16.000 lieues du lieu de ma naissance
J’étais à Moscou, dans la ville des mille et trois clochers et des sept gares
Et je n’avais pas assez des sept gares et des mille et trois tours
Car mon adolescence était si ardente et si folle
Que mon coeur, tour à tour, brûlait comme le temple d’Éphèse ou comme la Place Rouge de Moscou
Quand le soleil se couche.
Et mes yeux éclairaient des voies anciennes.
Et j’étais déjà si mauvais poète
que je ne savais pas aller jusqu’au bout.

Le Kremlin était comme un immense gâteau tartare
Croustillé d’or,
Avec les grandes amandes des cathédrales toutes blanches
et l’or mielleux des cloches…
Un vieux moine me lisait la légende de Novgorode
J’avais soif
Et je déchiffrais des caractères cunéiformes
Puis, tout à coup, les pigeons du Saint Esprit s’envolaient sur la place
Et mes mains s’envolaient aussi, avec des bruissements d’albatros
Et ceci, c’était les dernières réminiscences du dernier jour
Du tout dernier voyage
Et de la mer.

Pourtant, j’étais fort mauvais poète.
Je ne savais pas aller jusqu’au bout.
J’avais faim
Et tous les jours et toutes les femmes dans les cafés et tous les verres
J’aurais voulu les boire et les casser
Et toutes les vitrines et toutes les rues
Et toutes les maisons et toutes les vies
Et toutes les roues des fiacres qui tournaient en tourbillon sur les mauvais pavés
J’aurais voulu les plonger dans une fournaise de glaives
Et j’aurais voulu broyer tous les os
Et arracher toutes les langues
Et liquéfier tous ces grands corps étranges et nus sous les vêtements qui m’affolent…
Je pressentais la venue du grand Christ rouge de la révolution russe…
Et le soleil était une mauvaise plaie
Qui s’ouvrait comme un brasier.

En ce temps-là j’étais en mon adolescence
J’avais à peine seize ans et je ne me souvenais déjà plus de ma naissance
J’étais à Moscou, où je voulais me nourrir de flammes
Et je n’avais pas assez des tours et des gares que constellaient mes yeux
En Sibérie tonnait le canon, c’était la guerre
La faim le froid la peste le choléra
Et les eaux limoneuses de l’Amour charriaient des millions de charognes
Dans toutes les gares je voyais partir les derniers trains
Personne ne pouvait plus partir car on ne délivrait plus de billets
Et les soldats qui s’en allaient auraient bien voulu rester…
Un vieux moine me chantait la légende de Novgorode.

Moi, le mauvais poète qui ne voulais aller nulle part, je pouvais aller partout
Et aussi les marchands avaient encore assez d’argent
Pour aller tenter faire fortune.
Leur train partait tous les vendredis matin.
On disait qu’il y avait beaucoup de morts.
L’un emportait cent caisses de réveils et de coucous de la Forêt-Noire
Un autre, des boîtes à chapeaux, des cylindres et un assortiment de tire-bouchons de Sheffield
Un autre, des cercueils de Malmoë remplis de boîtes de conserve et de sardines à l’huile
Puis il y avait beaucoup de femmes
Des femmes, des entre-jambes à louer qui pouvaient aussi servir
Des cercueils
Elles étaient toutes patentées
On disait qu’il y avait beaucoup de morts là-bas
Elles voyageaient à prix réduits
Et avaient toutes un compte-courant à la banque.

Or, un vendredi matin, ce fut enfin mon tour
On était en décembre
Et je partis moi aussi pour accompagner le voyageur en bijouterie qui se rendait à Karbine
Nous avions deux coupés dans l’express et 34 coffres de joaillerie de Pforzheim
De la camelote allemande “Made in Germany”
Il m’avait habillé de neuf, et en montant dans le train j’avais perdu un bouton
– Je m’en souviens, je m’en souviens, j’y ai souvent pensé depuis –
Je couchais sur les coffres et j’étais tout heureux de pouvoir jouer avec le browning nickelé qu’il m’avait aussi donné

J’étais très heureux insouciant
Je croyais jouer aux brigands
Nous avions volé le trésor de Golconde
Et nous allions, grâce au transsibérien, le cacher de l’autre côté du monde
Je devais le défendre contre les voleurs de l’Oural qui avaient attaqué les saltimbanques de Jules Verne
Contre les khoungouzes, les boxers de la Chine
Et les enragés petits mongols du Grand-Lama
Alibaba et les quarante voleurs
Et les fidèles du terrible Vieux de la montagne
Et surtout, contre les plus modernes
Les rats d’hôtel
Et les spécialistes des express internationaux.