Arquivo da categoria ‘poemas’

Prestação de contas

Setembro 11, 2009

Conheço o jeito exato de fazer errado
perdido nesta teia que não tem enredo
(como bater na porta com a ponta dos dedos
como buscar um bit num banco de dados)

Conheço de cabeça o que não interessa
aos donos da verdade – este bilhar sem mesa –
(o rio não tem por que fugir da correnteza
a lesma só se arrasta porque não tem pressa)

Conheço pelo som o que não tem sentido
o que não tem segredo, o puro falatório
(os riscos nas paredes dos reformatórios
os traços de audiência dos desconhecidos)

Conheço por inteiro o meio do caminho
e até ali eu vou: depois dali não passo
(relendo folha a folha os mesmos calhamaços
ilhando-me no espelho a milhas dos vizinhos)

Conheço com frequência o que não passa nunca
e deixa marcas roxas no fio da navalha
(um pássaro acalenta tanto que atrapalha
um copo de aguardente, mais que alegra, trunca)

Conheço pontualmente a falta de horário
dos que me fazem falta nesse dia-a-dia
(atrás dos velhos álbuns de fotografias
atrás das folhas rasuradas dos diários)

Conheço e recomeço e logo mais esqueço
(no ouvido a mão em concha perguntando onde
na testa a mão em aba procurando longe)
pois tudo o que aprendi está do lado avesso

Auto da Cidade Baixa

Agosto 14, 2009

É esse o título do poema que escrevi para a seção la vie bohème da Revista do Beco número 4, lançada numa festinha bacana no dia 2 de agosto. Dividido em seis partes, o Auto foi escrito num mezzo portoalegrês etílico-noturno, e embora eu seja há tempos praticante dessa modalidade linguística do português, é a primeira vez que isso entra pra valer na minha poesia.

auto

A revista pode ser retirada em qualquer um dos vários pontos de distribuição, e também pode ser baixada aqui. E já que o pdf tem mais de 20 megas e meus melhores amigos ainda têm internet discada, separei as páginas do poema pra fazer a mão.

um p(r)o(bl)ema novo

Junho 5, 2009

Ralo


Ocorre que me escorro
ultimamente
pelos ralos
em ralos pelos
emaranhados tufos
deste louro
que me é caro
e que na superfície
sempre mais lunar
do crânio
do couro
fica raso e raro
avaro
cheio de intervalos
e entradas
sem saída:
duas enseadas
de pura testa
frontes de uma guerra
piloglandular
funesta
perdida


Restam-me as quimeras
da finasterida
a ilusão dos anti-queda
no transplante uma esperança
uma espera
uma fé publicamente inassumida
a esmola dos que têm menos
os fantasmas nos espelhos
e o consolo de que os brancos
pelo menos esses
quando vierem
serão poucos

caligra.jpg

Dezembro 2, 2008

caligra

pedinte

Novembro 4, 2008

Audiovideomontei o poema “De um pedinte”, página 22 do meu Desencantado carrossel, e taquei direto no youtube. Ficou, deixando a modéstia pra outra hora, uma bela obra de um minuto e meio. Recomendo full screen, luz apagada e volumão.


vide verso

Julho 31, 2008

às vezes
me invento
davi no divã
e às vezes
divido
minhas dúvidas
em dádivas

devido
às dívidas
me evado:
às vezes
me esquivo
e às vezes
me escavo

meu verso:
um revide
à vida
que me invade
ávida mágoa
como água
fervida

poema no balão

Julho 18, 2008

vertical vertigem

Junho 21, 2008

hematoma

Maio 25, 2008

Bicho não era não, nem monstro
mas tinha um jeito de falar rugoso
hálito grosso, pele de búfalo
e pêlos precoces no rosto

Bicho não era não, nem monstro
e no entanto dedos de acertar cascudo
braços de engravatar pescoço
mais mil palavras proibidas
pra xingar mãe filho da puta

Bicho não era não, nem monstro
mas vindo pra cima
sem chance de fuga
e chuta que chuta
e cuspe que gruda
e roupa rasgada
e tome hematoma
patrola animal
ceifando com raiva
com calma, com gozo
a erva daninha
a flor delicada
o joio medroso

Bicho não era não
nem monstro
era só mais uma tarde
da minha infância

no sentido do termo

Março 29, 2008

um cara com a língua
grudada
num poste de metal
congelado de inverno
no atual estado
dos estudos literários
ninguém duvida que se trata
de um poeta
pois faz uso
especial
fora do comum
ausente de utilidade
da própria língua