Situado na rua Conselheiro Lafaiete, Copacabana, Rio de Janeiro, o edifício Luiz Felipe não chama a atenção por sua arquitetura ou pelo seu luxo. Se depender disso, ficará eternamente invisível aos que passam por essa quase-esquina com a rua Raul Pompéia. Aliás, poucas coisas podem ser mais insignificantes aos olhos desatentos do que o encontro de uma cidade interiorana de Minas com um escritor do século XIX.
Acontece que, por 25 anos, o prédio de número 60 abrigou o poeta Carlos Drummond de Andrade, até agosto de 1987, quando morreu. No apartamento 701 nasceu grande parte da obra de Drummond, que, diz-se, era quietão e caseiro (ou, simplesmente, mineiro?) e, portanto, faca e queijo em mãos, trabalhava por ali mesmo. Um endereço que, mais metafórica do que financeiramente falando, vale ouro.

Ainda antes de comprar a passagem para o Rio, este já era um endereço de visita obrigatória, o que aconteceu no último dia 30. Câmera na mão, não esperava conseguir mais do que uma foto da fachada do prédio, e talvez de alguma placa que fizesse alusão ao fato, nos moldes daquela da Nascimento Silva 107 vista na véspera. Mal tirei a primeira foto, um homem que mais adiante se identificou como seu João, zelador do prédio, veio perguntar o que eu queria. Boa pergunta. O que eu queria? Uma foto de um prédio meio sem graça, de uma placa que eu não sabia se existia, de algum vulto poético? Não sabia bem.
Optei por responder com uma pergunta retórica, dando uma olhada pra cima como se procurasse algum conhecido numa das sacadas: “foi no 701 que morou o Drummond, não?”. Ele fez um a-ham e perguntou se eu era jornalista (?!?), mas minha falta de jeito nem precisou de palavras para que ele sacasse que eu não estava ali por obrigação profissional. Aí ele entendeu. Não sei se pelo meu rosto, pela minha respiração ou pelo meu silêncio, mas seu João me olhou com simpatia (era um abraço de amigo que ele me dava com os olhos) e abriu o portão: “só não pode subir pros andares, mas pode circular por aqui”. Nem consegui agradecer.
Entramos e, depois de uma rápida apresentação e da confirmação da ausência de uma plaquinha sequer, seu João me disse que aquele hall não tinha mudado nada nada nada, nem o elevador, nem as poltronas, nem o tapete, enfim, tudo bem igualzinho, e logo me deixou só e à vontade, comprovando que tinha entendido o que se passava.

Andei por ali, fotografei a escada de serviço, entrei e saí do elevador umas sete vezes, tentei acreditar que espíritos existem e que aparecem com mais facilidade pelos espelhos e ajeitei demoradamente meu cabelo, eu que nem tenho esse costume, só pra ver se ele aparecia.
Sentei numa das poltronas e inventei de pensar no que a poesia ainda poderia significar, se é que já tenha significado algum dia, e se valia a pena toda a angústia de escrever um poema, e depois outro, e depois outro, e depois reunir todos eles e achar um título bem bonito e um pouco surpreendente, que não-diga mais que diga mas que faça algum sentido, e depois ter a pretensão de que outras pessoas leiam o que vai ali, aquele punhado de coisas inúteis espremidas em algumas linhas, como uma laranja que chora o próprio suco. Então pensei que, talvez naquela mesma poltrona, alguém bem maior já tivesse pensado em tudo aquilo e tivesse dito “bom, vamos lá, poesia é assim mesmo”, sem imaginar que, anos mais tarde, alguém fosse estar ali, uma lágrima solitária se perdendo no imenso do tapete, por sua causa. Aí eu entendi.
Na saída, seu João me deu um tapinha nas costas e disse: “vê se o senhor manda um livro seu pra mim, é só escrever no envelope que é pra portaria que não tem erro”. Eu prometi que mandaria, claro, assim que saísse um, e ele disse que ficaria esperando. Um poeta, ele.

Depois de mais um muito obrigado e um tchau, o carro partiu. Antes, porém, de me perder pelas ruas de Copacabana, pude virar para trás e ver que, da calçada do edifício Luiz Felipe, seu João ainda acenava com o braço direito. Ao seu lado, um velhinho de óculos, meio sem entender o que se passava, resolveu, também ele, talvez por cortesia, talvez por compaixão, acenar para este mero aprendiz. Seu João nem percebeu.