euclidianas

fevereiro 5, 2010 por Diego Grando

Euclidianas é o título do décimo-primeiro livro de Eugène Guillevic (1907-1997), um dos mais importantes poetas franceses da segunda metade do século XX, que por mania assinava seus textos apenas como Guillevic. Sua poesia, infelizmente, é pouco conhecida (traduzida) no Brasil.
Nessa obra, publicada em 1967 pela Gallimard, 43 figuras e/ou noções tomadas da geometria euclidiana intitulam e ilustram os 50 poemas curtos que a compõem (o ângulo reto, o círculo, o ângulo obtuso, o plano e a esfera dão vez/voz a mais de um poema), formando uma espécie de compêndio poético de geometria elementar e desvendando, assim, o que há de mais tangencialmente humano em todos (todos?) nós.


paralelas

Vocês gritam no espaço
Que deve separá-las.

Vocês gritam tão forte
Ao menos para o outro espaço
Que vocês cortam em dois,

Como se vocês fossem
Para todo o sempre as únicas
A não poder se encontrar.


ângulo obtuso

Se é por não ter
Poder para penetrar
O que faz abrir-se ainda
Bem mais do que gostaríamos

Ou se é por estar aberto
Bem mais do que gostaríamos
O que tira seu poder
Para penetrar,

Será isso
Uma pergunta?

Se é, a resposta
Está em algum lugar.


esfera



Eu te amo por seres habitual,
Espaço para meus dias,
Para meu olhar os olhos fechados.

Em ti tenho lugar,
Em ti eu existo,
Eu me edifico.

Em ti,
Aquilo que amo, aqueles que amo,
Alguns lamentos.

Em ti silêncio,
Em ti o tempo
Que recolho, resumo.

Sair de ti,
Isso será para não estar mais,
Para não ser mais.


cilindro

Se deixássemos a esfera
Para sairmos por aí,
É através de ti
Que passaríamos.

Imagino mais ou menos
O que isso poderia ser:

Conheci teu comprimento
Em tantos sonhos ruins.


parábola

Vinda de longe

Sempre com o mesmo,
O movimento regular,

Cada passo que dou
Está por antecipação inscrito,
Cada lugar em que toco
Estava predestinado
Mas só por minha história.

Vinda de longe

Para essa volúpia,
Mas tão curta, no topo.

E de novo partir
Em sentido inverso
Igualmente,
Exatamente.


cone truncado

Tão bem tu te pareces
Com muitos entre nós

Que não fomos
Até o topo.


***


parallèles

Vous criez dans l’espace
Qui doit vous séparer.

Vous criez aussi fort
Au moins vers l’autre espace
Que vous coupez en deux,

Comme si vous étiez
A tout jamais les seuls
A ne pouvoir vous rencontrer.


angle obtus

Si c’est de n’avoir pas
Pouvoir de pénétrer
Qui fait s’ouvrir encore
Bien plus qu’on ne voudrait

Ou si c’est d’être ouvert
Bien plus qu’on ne voudrait
Qui vous enlève le pouvoir
De pénétrer,

Est-ce que c’est
Une question?

Si c’en est une, la réponse
Est quelque part.


sphère

Je t’aime d’être habituelle,
Espace pour mes jours,
Pour mon regard les yeux fermés.

En toi j’ai place,
En toi je suis,
Je me bâtis.

En toi,
Cela que j’aime, ceux que j’aime,
Quelques regrets.

En toi silence,
En toi le temps
Que je recueille, je résume.

Sortir de toi,
Ce sera pour n’être plus là,
Pour n’être plus.


cylindre

Si l’on quittait la sphère
Pour s’en aller ailleurs,
C’est à travers toi
Que l’on passerait.

J’imagine à peu près
Ce que ça pourrait être :

J’ai connu ta longueur
Dans tant de mauvais rêves.


parabole

Venant de loin

Avec toujours la même,
La régulière allure,

Chaque pas que je fais
Est par avance inscrit,
Chaque lieu que je touche
Était prédestiné
Mais par ma seule histoire.

Venant de loin

Vers cette volupté,
Mais si courte, au sommet.

Puis repartir
En sens inverse
Pareillement,
Exactement.


cône tronqué

Aussi bien tu ressembles
A beaucoup d’entre nous

Qui ne sont pas allés
Jusqu’à former sommet.

bexiga

dezembro 20, 2009 por Diego Grando

Antes ainda de eu abrir a porta
vaticinava a mãe que era melhor
fazer xixi só para garantir.

Fosse eu logo ali na padaria
para do pão poder guardar o troco
ou na piscina de água bem quentinha
da natação terças e quintas contra a asma
fosse aonde fosse e mesmo que
sinal algum de uma vontade houvesse
e ainda por três quatro ardidas gotas
amareladas na borda do vaso
ela dizia não quer fazer xixi
meu filho só para garantir?

Hoje mijo nem que seja sangue
(perdoadas sejam elas por não saberem
que amor de mãe não enche bexiga)
mijo em seu nome e em nome do filho
que eu poderia não ter sido.

um silêncio de cada vez

dezembro 8, 2009 por Diego Grando

Poesia: estado
de mudo analfabetismo
bem organizado.

ruminando a place Dauphine

novembro 12, 2009 por Diego Grando

 

Enquanto isso


Mas se sou mero pescador
que com esmero espera peixes fora d’água
não é de graça estar sentado, é pura praxe
a uma hora dessas numa dessas praças
assim atento espectador de espectros
assento para pombo ou corvo
astuto, estátua, pose para foto
assim em condição de espelho
embaçado especulando se um dia
meus caros, um dia
minha casa, um dia
talvez um dia
em meu caminho, um dia
em minha vida, um dia
se isso por algum acaso
um dia−
pensando bem
isso não passa


Paris, place Dauphine, 11 de novembro de 2009.

Valery Larbaud (1881-1957)

outubro 29, 2009 por Diego Grando

Ode


Empresta-me teu grande ruído, tua grande marcha tão suave,
Teu deslizar noturno através da Europa iluminada,
Ó trem de luxo! e a angustiante música
Que ressoa ao longo de teus corredores de couro dourado,
Enquanto atrás das portas laqueadas, com trincos de cobre pesado,
Dormem os milionários.
Eu percorro cantarolando teus corredores
E sigo tua corrida para Viena e Budapeste,
Misturando minha voz às tuas cem mil vozes,
Ó Harmonika-Zug!

Eu senti pela primeira vez todo o prazer de viver,
Em uma cabine do Norte-Expresso, entre Wirballen e Pskow.
Deslizávamos através das pradarias onde os pastores,
Ao pé de grupos de grandes árvores iguais a colinas,
Estavam vestidos com peles de ovelhas cruas e sujas…
(Oito horas da manhã no outono, e a bela cantora
Dos olhos violeta cantava na cabine ao lado.)
E vós, grandes lugares através dos quais eu vi passar a Sibéria e os montes do Sâmnio,
A Castela áspera e sem flores, e o mar de Mármara sob uma chuva morna!

Emprestai-me, ó Expresso do Oriente, Sud-Brenner-Bahn, emprestai-me
Vossos milagrosos ruídos surdos e
Vossas vibrantes vozes de delgada corda;
Emprestai-me a respiração leve e fácil
Das locomotivas altas e magras, com movimentos
Tão fluidos, as locomotivas dos rápidos,
Precedendo sem esforço quatro vagões amarelos com letras de ouro
Nas solidões montanhosas da Sérvia,
E, mais longe, através da Bulgária cheia de rosas.

Ah! é preciso que esses ruídos e que esse movimento
Entrem nos meus poemas e digam
Para mim minha vida indizível, minha vida
De criança que não quer saber nada, senão
Esperar eternamente coisas vagas.

 


Ode


Prête-moi ton grand bruit, ta grande allure si douce,
Ton glissement nocturne à travers l’Europe illuminée,
Ô train de luxe ! et l’angoissante musique
Qui bruit le long de tes couloirs de cuir doré,
Tandis que derrière les portes laquées, aux loquets de cuivre lourd,
Dorment les millionnaires.
Je parcours en chantonnant tes couloirs
Et je suis ta course vers Vienne et Budapesth,
Mêlant ma voix à tes cent mille voix,
Ô Harmonika-Zug !

J’ai senti pour la première fois toute la douceur de vivre,
Dans une cabine du Nord-Express, entre Wirballen et Pskow.
On glissait à travers des prairies où des bergers,
Au pied de groupes de grands arbres pareils à des collines,
Etaient vêtus de peaux de moutons crues et sales…
(Huit heures du matin en automne, et la belle cantatrice
Aux yeux violets chantait dans la cabine à côté.)
Et vous, grandes places à travers lesquelles j’ai vu passer la Sibérie et les monts du Samnium,
La Castille âpre et sans fleurs, et la mer de Marmara sous une pluie tiède!

Prêtez-moi, ô Orient-Express, Sud-Brenner-Bahn, prêtez-moi
Vos miraculeux bruits sourds et
Vos vibrantes voix de chanterelle;
Prêtez-moi la respiration légère et facile
Des locomotives hautes et minces, aux mouvements
Si aisés, les locomotives des rapides,
Précédant sans effort quatre wagons jaunes à lettres d’or
Dans les solitudes montagnardes de la Serbie,
Et, plus loin, à travers la Bulgarie pleine de roses.

Ah ! il faut que ces bruits et que ce mouvement
Entrent dans mes poèmes et disent
Pour moi ma vie indicible, ma vie
D’enfant qui ne veut rien savoir, sinon
Espérer éternellement des choses vagues.


De Les Poésies de A. O. Barnabooth, 1908.

William Cliff

outubro 19, 2009 por Diego Grando

é uma atração atroz que este húmus todo em turbilhão
se reproduza apenas para de novo devorar-se
no entanto isso fascina e a gente quer sempre durar
e não deixar esta orgia de morte e esta multidão

lutando para se alimentar e para esvaziar a pança
beber e comer esfregar-se um no outro segundo a
imutável lei de um frete que não sabe aonde vai dar
isso fascina e a gente quer sempre dançar a dança

desta orgia de morte de amor e de gritos de triunfo
e de gritos de desprezo para os que na tumba afundam
isso fascina e a gente gosta de voltar à orgia

mesmo sabendo ter que pagar o caro preço um dia
a gente volta para deitar e rolar com a louca raiva
de se entupir beber e fornicar antes do grande naufrágio


c’est un spectacle atroce que tout cet humus qui grouille
et ne se reproduit que pour encor se dévorer
pourtant cela fascine et nous voudrions toujours durer
et ne pas quitter cette orgie de mort et cette foule

luttant pour se nourrir et pour se débonder la panse
boire et manger se frotter l’un sur l’autre selon la
loi immuable d’un charroi qui ne sait où il va
cela fascine et nous voudrions toujours danser la danse

de cette orgie de mort d’amour et de cris de triomphe
et de cris de mépris pour ceux qui tombent dans la tombe
cela fascine et nous aimons retourner à l’orgie

bien que sachant devoir un jour en payer le lourd prix
nous retournons nous y rouler avec la folle rage
de bâfrer boire et forniquer avant le grand naufrage


William Cliff, Autobiographie, 2009.

Prestação de contas

setembro 11, 2009 por Diego Grando

Conheço o jeito exato de fazer errado
perdido nesta teia que não tem enredo
(como bater na porta com a ponta dos dedos
como buscar um bit num banco de dados)

Conheço de cabeça o que não interessa
aos donos da verdade – este bilhar sem mesa –
(o rio não tem por que fugir da correnteza
a lesma só se arrasta porque não tem pressa)

Conheço pelo som o que não tem sentido
o que não tem segredo, o puro falatório
(os riscos nas paredes dos reformatórios
os traços de audiência dos desconhecidos)

Conheço por inteiro o meio do caminho
e até ali eu vou: depois dali não passo
(relendo folha a folha os mesmos calhamaços
ilhando-me no espelho a milhas dos vizinhos)

Conheço com frequência o que não passa nunca
e deixa marcas roxas no fio da navalha
(um pássaro acalenta tanto que atrapalha
um copo de aguardente, mais que alegra, trunca)

Conheço pontualmente a falta de horário
dos que me fazem falta nesse dia-a-dia
(atrás dos velhos álbuns de fotografias
atrás das folhas rasuradas dos diários)

Conheço e recomeço e logo mais esqueço
(no ouvido a mão em concha perguntando onde
na testa a mão em aba procurando longe)
pois tudo o que aprendi está do lado avesso

quarta-feira

agosto 31, 2009 por Diego Grando

Sinuca POA

Quem não for, bobeou.

Auto da Cidade Baixa

agosto 14, 2009 por Diego Grando

É esse o título do poema que escrevi para a seção la vie bohème da Revista do Beco número 4, lançada numa festinha bacana no dia 2 de agosto. Dividido em seis partes, o Auto foi escrito num mezzo portoalegrês etílico-noturno, e embora eu seja há tempos praticante dessa modalidade linguística do português, é a primeira vez que isso entra pra valer na minha poesia.

auto

A revista pode ser retirada em qualquer um dos vários pontos de distribuição, e também pode ser baixada aqui. E já que o pdf tem mais de 20 megas e meus melhores amigos ainda têm internet discada, separei as páginas do poema pra fazer a mão.

cabalismo informativo sem compromisso

julho 21, 2009 por Diego Grando

Saiu na revista Vida Simples do mês de agosto, de número 82, um poema do meu Desencantado carrossel.
Está lá na seção Postais poéticos, página 82, e vem acompanhado de uma belíssima ilustração do Conrado Almada.
A Carol Bensimon, nascida em 82, assina, também nessa edição, uma entrevista com o filósofo francês Michel Onfray.

*

Uma das minhas avós, de quem só tenho uma – e a mais antiga – lembrança (muita claridade, a cama bem embaixo da janela, a voz rouca e alguma coisa misteriosamente guardada sob o travesseiro), faleceu em 82.
Da outra eu me lembro bastante: morou na minha casa até sua morte, aos 82 anos.

*

Eu tenho 28 anos, sou poeta, namoro a Carol e não conheci nenhum dos meus avôs.